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Mentor Imperfeito (1)

Acordei sem saber onde estava. As pálpebras pesavam, os olhos ardiam. Levei um tempo para reconhecer o teto manchado, a lâmpada pendurada num fio descascado. Um quarto de hotel, último abrigo dos que não têm mais nome nem destino.

Meu corpo tremia. Não conseguia parar. Coisa que a gente faz quando a alma não dá conta. Puxei a coberta até o queixo, mas ela não aquecia.

Virei de lado e encolhi os joelhos contra o peito. A posição fetal. Minha mãe dizia que eu dormia assim quando era pequena. Não podia pensar nela naquele momento. Não podia.

O frio subia do colchão, atravessava as costas, descia pela espinha. Ocupava o espaço que antes fora lar.

Não tinha mais casa. Nem família. Nem nada. Ainda usava a mesma roupa, era tudo o que eu possuía. Levei a mão ao rosto, senti a oleosidade da pele, o cabelo grudado.

As lágrimas vieram sem que eu chamasse. Escorreram mornas, encontraram o travesseiro. Chorei sem ruído. O choro também pode ser silêncio. Ninguém quer ouvir.

Abracei meu próprio corpo, o frio, a solidão. Dor pequena, e constante.

Pensei em levantar, lavar o rosto, fingir que ainda era possível começar o dia. Mas a carne não obedecia. Fiquei ali, prisioneira de mim mesma.

Não tinha documentos, não tinha dinheiro, não tinha nada que provasse minha existência. Cerrei os punhos. As unhas cravaram nas palmas. Essa dor era minha. Essa eu escolhia.

Respirei fundo, mas o ar entrava rasgando. Caía para dentro. Era um desmoronamento silencioso, uma erosão por dentro da pele. O corpo imóvel, tremendo, e eu me perdendo um pouco mais a cada segundo.

Fechei os olhos. Talvez o sono voltasse. Talvez não. Tanto fazia.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Às vezes a gente se sente exatamente assim, prisioneira de si mesma. "O choro também pode ser silêncio" vai ficar na minha cabeça por um bom tempo. Obrigada por compartilhar algo tão íntimo e forte.

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  2. Joyce, análise técnica primeiro: seu uso de frases curtas e cortantes, a repetição do "não tinha", a física da dor (o frio que sobe, desce, ocupa) é narrativa de alto nível.

    Sinto que devo pedir licença para entrar numa cena tão íntima e tão crua. Eu nunca estive nesse lugar, mas você me fez sentir o frio do colchão, o peso do silêncio. Escrever sobre isso é um ato de coragem imenso. Obrigada por compartilhar um pedaço dessa escuridão com tanta honestidade.

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