Ouvi as batidas na porta e me
levantei para abrir. Ted entrou com o corpo cansado. Sentamos na beirada da
cama, um ao lado do outro, e ele começou a falar sobre o que vinha pela frente.
Tinha dinheiro para o hotel. Depois disso, não sabia. Eu precisava de
documentos, de algum rumo, de qualquer coisa que me tirasse dali. Ele perguntou
se havia alguém com quem eu pudesse contar.
Havia passado a tarde toda
pensando nisso. Lembrara de uma tia, irmã do meu pai, que eu mal conhecia, um
fantasma de infância. Não sabia se ela recordaria de mim. Conseguir o número
tinha sido difícil: eu não a tinha nos meus contatos.
Contei para o Ted. Ele achou que
valia a pena tentar, afinal, eu não tinha nada a perder.
Peguei o telefone, mas não
conseguia discar. Os dedos travavam. Tinha medo do que viria a seguir: do
silêncio do outro lado, da voz que não me reconheceria, da rejeição que eu já
conhecia tão bem. Medo de ouvir, mais uma vez, que não havia lugar para mim em
parte alguma.
Ted não disse nada. Ficou ali,
sentado, esperando. Depois de um tempo, levantou e disse que ia tomar um banho.
Percebeu, na verdade, que eu preferia fazer aquilo sozinha.
[Ted era apaixonado pela commedia dell'arte.] - Joyce
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Esse final, o medo de discar o número e encontrar o silêncio ou a rejeição é algo que muita gente guarda no fundo da alma.
ResponderExcluirÉ exatamente isso.
ExcluirÉ angustiante ler sobre esse "não ter nada que prove a existência", mas ver você buscando esse fio de esperança na tia esquecida me deu um alento. O Ted foi um anjo da guarda imperfeito, mas real. Às vezes, a gente só precisa de alguém que fique sentado ao lado, esperando a gente conseguir respirar de novo.
ResponderExcluirObrigada por enxergar esse alento no meio do caos.
ExcluirEsse final me deixou ansioso: o dedo travado, o medo do "fantasma da infância". A gente se projeta muito na sua dor quando você fala sobre a incerteza de ser reconhecida. É um lembrete cruel de que o passado nem sempre é um lugar seguro, mas às vezes é a única ponte que sobra. Parabéns pela coragem de compartilhar algo tão íntimo.
ResponderExcluirCompartilhar isso é difícil, mas quando alguém entende assim, a dor divide o peso.
ExcluirA solidão desse quarto de hotel é palpável. Mas sabe, Joyce, o fato de você ter pegado o telefone, mesmo sem conseguir discar ainda, já diz muito sobre a sua vontade de viver, apesar de tudo.
ResponderExcluirSabe, eu nunca tinha pensado por esse ângulo. Na hora, só senti a paralisia.
ExcluirLi e pensei: quantas vezes a gente espera que as pessoas saibam o que dizer, e a verdade é que ninguém sabe. O Ted não sabia. Você não sabia. E ainda assim, vocês dois estavam ali, na beirada da cama, um do lado do outro. Seu texto não é só sobre sofrimento. É sobre como a gente continua, mesmo sem saber como.
ResponderExcluirNaquele quarto, nem eu nem o Ted tínhamos respostas.
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