O som da água corrente deixou de ser um mero ruído branco e se transformara em algo convidativo. Levantei-me, as pernas trêmulas e
geladas, e me aproximei em silêncio da porta entreaberta do banheiro. Um vapor
morno escapava, carregando o cheiro limpo do sabonete do hotel. Espiei.
Ted estava debaixo da ducha,
cabeça baixa, ombros largos e tensos. Ali encontrei um ponto firme em meio ao
caos. A água escorria lentamente pelas suas costas, delineando a coluna,
lavando o pó e o cansaço. Ele não me ouviu.
Entrei e apoiei-me no balcão da
pia, soltando a fumaça devagar. Ele se virou, interrompendo o curso da água. Os
olhos carregados encontraram os meus, depois desceram até o cigarro entre meus
dedos. Não disse nada, apenas observou.
Dei uma longa tragada, sentindo o
fumo nos pulmões. Anestesiante. Com a outra mão, comecei a tirar a roupa, que
deslizou pelos meus braços e caiu no chão encharcado.
Levei o cigarro aos lábios
novamente. A fumaça desceu pela garganta, preencheu meus pulmões, e a soltei
devagar. A névoa branca se misturou ao vapor do chuveiro, envolvendo nós dois.
Nua, o vapor formando pequenas
pérolas sobre minha pele, dei mais um passo. O ar quente me envolveu. Ted levou
as pontas molhadas e quentes dos dedos ao meu rosto, tocando minha têmpora,
descendo pela linha da mandíbula.
Outra tragada, mais lenta.
Inclinei a cabeça para trás e deixei a fumaça sair em finos fios. Os olhos dele
seguiam cada movimento: o cigarro subindo aos meus lábios, a brasa acesa
brilhando úmida, minhas bochechas se afundando, a fumaça escapando da minha
boca entreaberta.
Ele deu um passo à frente e
desceu o rosto no meu pescoço, a boca encostando na pele. Respirou fundo,
inalando o cheiro de tabaco que grudava em mim. Suas mãos subiram devagar; eu
deixei. O calor da água, o toque dele, a fumaça, tudo me envolvia, me acalmava.
Fumei mais, segurando sua nuca
com a mão livre, mantendo-o ali. A cada tragada, suas mãos apertavam minha
cintura com mais força. Aproximei o cigarro dos nossos rostos, deixando que ele
sentisse o calor da brasa, e soprei a fumaça lentamente contra seus lábios
entreabertos.
Levei o cigarro aos lábios pela
última vez, tragando com coragem antes de soltar a bituca no chão molhado.
Adentrei aquele espaço mínimo e o envolvi. Meu corpo colou-se ao seu: os seios
pressionando suas costas, a barriga contra o dorso molhado.
A água caía sobre nós, unindo-nos. Senti meus seios enrijecerem, e minhas palmas descobriram a textura úmida de sua pele. Ele inclinou a cabeça para trás, encaixando-a no meu ombro. Era um ritual, um pacto no silêncio.
[Ted era apaixonado pela commedia dell'arte. E eu, pelo Carnaval! Acho que encontrei o crossover perfeito. 😉] - Joyce

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