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Mentor Imperfeito (9)

A livraria surgira sem grande intenção, e Ted entrou nela mais por hábito do que por necessidade.

O sininho tilintou quando ele empurrou a porta. Entrei atrás dele. Havia um cheiro de livros antigos, e de café também, vindo de algum lugar nos fundos da loja.

Ted se perdeu entre as estantes, os dedos deslizando pelas lombadas dos livros em uma busca, não numa escolha. Por fim, deteve-se numa seção junto à janela alta, onde a luz enfraquecida do sol tocava as capas inclinadas. Vi-o puxar um volume, folhear algumas páginas, voltar à contracapa. Quando retornou, trazia nas mãos o pequeno volume encadernado.

Pediu dois cafés enquanto nos sentávamos à mesa e, sem cerimônia, estendeu-me o livro: Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro. Senti um aperto lento e insistente ocupar o espaço dentro do peito, até tornar-se difícil sustentar o próprio ar.

Ele colocou o livro na mesa, entre as xícaras. O cheiro do café subia, preenchendo o espaço estreito da livraria. Não disse nada de imediato; apenas observou minhas mãos ainda trêmulas, que repousavam sobre a superfície de madeira. Eu sentia a acuidade silenciosa do seu gesto.

Ted explicava que o livro é narrado por Kathy, que relembra toda a sua vida. Ao reviver suas memórias, ela se deixa guiar pela ordem de seus sentimentos, o que a leva a narrar de forma fragmentada, sem ordem cronológica, guiada mais por feridas do que por datas.

Em sua escrita, Ishiguro nos mostra que Kathy não está escrevendo um diário a fim de ser publicado; ela está dando um testemunho para justificar sua vida e a de seus amigos, buscando significado para as suas existências. A personagem está, na verdade, processando o passado, revendo feridas e tentando entender sua existência antes da morte. À medida que as recordações vão se sobrepondo, transmite-se ao leitor uma sensação melancólica e angustiante de perda e solidão.

Os personagens são clones criados para a reposição de órgãos em uma sociedade futurista que não os enxerga como humanos. Esse destino terrível espelha a forma como a máquina social, com frequência, nos vê apenas como peças descartáveis em um mundo desumano. Somos reduzidos àquilo que entregamos: nosso trabalho, nosso consumo. E, por isso, podemos ser facilmente substituídos.

O peso da mortalidade iminente dos personagens e o propósito fatal de seus corpos moldam a narrativa em um tom profundamente melancólico, impulsionando-os em uma busca incessante, porém frágil, por validade antes do fim.

A narrativa de Ishiguro nos leva a questionar o que realmente nos torna humanos. Não são nossos genes, tampouco nossa mera capacidade de consciência, mas a forma de construir afeto, significado e memória ao longo da vida.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Mdssss eu amo esse livro e ele é TRISTE dmais!! 😭 O cheiro de cafe e livro antigo é o melhor lugar pra se esconder do mundo ne.

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  2. pesado o paralelo com os clones... a gente as vezes se sente assim msm, so uma peça na engrenagem. texto impecavel hj, parabens!!

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  3. "guiada mais por feridas do que por datas" . É exatamente como vc ta escrevendo esse blog, ne? a gnt nao lembra do dia exato, mas lembra da dor exata. ❤️

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  4. q lugar era esse??? livraria com cafe é tudo. mas o clima entre vcs dois ainda ta mto tenso, parece q o livro virou um terceiro personagem na mesa. nao li esse ainda mas dps do seu resumo ja quero comprar.

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  5. Ishiguro é mestre em destruir a gente no silencio.

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