Então minha tia, que durante toda
a história estivera de braços cruzados, encostada no espaldar da cadeira, de
cabeça inclinada, processando cada frase sem o interromper, se levantou e
abaixou o volume, não desligou, apenas abaixou. De costas, quis saber onde ele
morava. Houve uma pausa. Da caixa de som, a voz de Elis vinha baixa agora. Ted respondeu
que ainda morava com os pais; as mãos buscaram os joelhos. Minha tia assentiu
devagar, olhou-o bem e o chamou para conhecer o resto da casa. Ela saiu, mas
Ted seguiu imóvel. Somente quando ela sumia pelo corredor é que ele se rendeu.
Eu não me mexi.
Ouvi as vozes deles pelo
corredor, o tom dela explicando alguma coisa, o tom dele respondendo, a porta
do quarto de hóspedes abrindo. A voz dela ficou mais alta por um segundo,
animada com alguma coisa, e depois voltou ao normal. Não demorou muito.
Quando voltaram para a sala,
pararam em frente à estante. Minha tia pegou um porta-retrato. Passou para Ted.
Eu me levantei e fui até os dois.
Era o filho dela, sorrindo ao
lado de um carro coberto de barro seco, um troféu na mão.
Ela contou que ele havia ganhado
uma corrida. Disse o nome da cidade, o dia da prova, mencionou que o carro
apresentara problema no início, mas que ele insistira. Falava com calma, mas os
dedos seguravam a moldura com firmeza.
Ted inclinou o rosto sobre a foto
e perguntou sobre o carro. Ela respondeu com uma precisão que eu não esperava.
Disse o modelo, o ano, falou sobre a suspensão, sobre uma peça que ele mesmo
havia substituído na véspera da corrida. Ted ouvia com o corpo levemente
inclinado para frente. Ela continuou falando sem que nenhum de nós precisasse
responder.
Devolveu a foto ao lugar,
alinhando-a à borda do móvel e foi para a cozinha preparar café.
Voltamos para o sofá. Ted
comentou que o espaço era acolhedor, mas fiquei sem saber o que responder. Ele
então mencionou a beleza do vaso, e meu olhar seguiu o dele até a estante. Lá
estava: um vaso de Murano, âmbar e bojudo, trabalhado em estilo Baloton. Tinha
um igual em casa; na casa dos meus pais. Ficava na prateleira da sala, perto da
janela, e a luz passava por ele e deixava uma mancha laranja na parede. Eu via
aquilo todo dia durante anos e nunca pensei muito nisso. Quando a gente conhece
um lugar desde criança para de ver ele.
Ted continuou observando a
estante e comentou que o lugar parecia muito bem cuidado, observação com a qual
eu concordei prontamente. Após um breve silêncio, ele mencionou que o gosto por
LPs viera de dois amigos da época da república, que colecionavam discos e
costumavam discotecar com eles.
Comentei que aquilo devia dar um
trabalho considerável, e Ted assentiu. Ele explicou que, sempre que iam tocar
em algum lugar, precisavam carregar diversas caixas pesadas. Perguntei se a
frequência de apresentações era alta, ao que ele respondeu que acontecia
ocasionalmente em festas de amigos ou bares pequenos. Segundo ele, a
experiência era muito mais interessante do que lidar apenas com arquivos
digitais.
Fomos interrompidos pela voz da
minha tia, que nos chamava da cozinha para o café.
Sentamos os três à mesa da
cozinha sob o aroma do café forte, que Ted bebia sem pressa. A conversa derivou
para banalidades: o preço das coisas, o calor que se aproximava, o custo de
encher o tanque e o vaivém do comércio local, entre mercados que fechavam e
outros que abriam em seu lugar.
Quando terminou, Ted levantou-se
e agradeceu à minha tia pela recepção. Acompanhei-o até a porta e, já no
corredor, ele tocou meu braço com leveza, prometendo ligar mais tarde. Apenas
assenti. Minha tia permaneceu na cozinha, de costas, entretida na organização
dos copos.
Fui até a varanda e o vi atravessar a calçada. Pouco depois, ele ergueu o olhar, mas não me notou. Fechei a porta e voltei para dentro. Minha tia sustentou meu olhar por alguns segundos; não fez perguntas, apenas esperou. Eu sorri, e ela me devolveu o gesto.

Olá Joice, pelos relatos me pareceu que nesta época você ainda fumava muito pouco, quase que ocasionalmente. Ainda não tinha o vício, não sentia a necessidade diária, mesmo com tanto estresse.
ResponderExcluirIsso mesmo, a vontade foi aumentando com o tempo. Lembrando que, nesse ponto da história, faz pouco tempo que comecei: cerca de três meses.
ResponderExcluirAmo discotecagem em vinil. Fui a uma apresentação do coletivo Vinil é Arte uma vez e foi maravilhoso!
ResponderExcluirMenina, você não vai acreditar! Foi por causa deles que o Ted e seus amigos adquiriram o gosto por vinil, kkkk.
ExcluirNossa, eram só 3 meses, a impressão que dá é de que era bem mais tempo, o início do trabalho, o primeiro cigarro, os embates com a Sofia, e o Ted, o tempo parecia voar.
ResponderExcluirPois é, anônimo! Por favor, escreva seu nome quando comentar para que eu saiba com quem estou falando. Acredito que a sensação de tempo seja longa porque o blog já tem quase um ano, mas como eu narro praticamente o dia a dia, passou-se pouco tempo na história, embora estejamos acompanhando há meses.
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