Ted fez uma pausa. A ponta do dedo deslizou pela porcelana da xícara antes de continuar.
O que mais o incomodava no livro era, justamente, a passividade dos personagens. Eles conhecem o destino que os espera e, ainda assim, não se rebelam. Consideram a fuga, falam sobre isso, mas nunca partem. Essa resignação não é um defeito da narrativa; mas sim o seu coração.
Os doadores foram condicionados desde crianças a aceitar seu papel. Mesmo que tentassem escapar, não teriam para onde ir: não possuem documentos, família ou vínculos com o mundo exterior. Sua educação não os preparou para trabalhos comuns; a sociedade que os criou também os teme e os desumaniza. Ninguém os ajudaria.
A
submissão dos doadores é um espelho da nossa. Quantas vezes aceitamos regras
que nunca escolhemos? Estudar, trabalhar, pagar contas, seguir uma trajetória
pré-estabelecida. Convencemo-nos de que não há alternativa, de que o mundo
simplesmente funciona assim. Somos ensinados, desde cedo, a não questionar
certas estruturas, e então passamos a vida dentro delas como se fossem naturais
e inevitáveis. E toda vez que alguém ousa desafiá-las, é temido e hostilizado.
A
verdadeira tragédia, portanto, não está apenas em morrer cedo. Está em saber
que a vida vai acabar. Eles têm um prazo claro e inegociável. Nós, por outro
lado, negamos o nosso, vivendo sob a ilusão da eternidade.
Cientes
do fim, os personagens amam, brigam por bobagens, colecionam pequenos objetos,
criam memórias. É a forma que todos nós, de maneira geral, vivemos. A diferença
é que, quando confrontados com a nossa própria mortalidade, desistimos de
tentar encontrar sentido e felicidade em um tempo tão limitado e sucumbimos à
depressão.
E,
por fim, surge a perda. Kathy assiste seus amigos desaparecerem um a um,
perdidos para as doações, para a morte. Uma sensação de abandono permeia cada
página. Da mesma forma, à medida que envelhecemos, nós também perdemos pessoas.
Amigos de infância se distanciam, entes queridos morrem, relacionamentos se
desfazem. A vida, implacável, nos obriga a soltar as mãos de quem amamos.
Concordo com o que ele dissera. O livro revela que, de alguma forma, fomos criadas para doar partes de nós: o corpo, a voz, o afeto. E ainda assim, agradecer pela oportunidade. É sobre servidão. Sobre a ternura com que a sociedade embalsama quem nunca aprendeu a dizer não: a "boa filha", a "boa funcionária", a "boa mulher".

"A gente morre e ainda agradece pela oportunidade". Pesado dmais!!!!! 😭 Essa parte das doações de orgãos como metafora pra gnt doando nossa saude mental e nosso tempo pros outros... nunca tinha pensado por esse lado. Vc escreve mto bem, mas hj me deixou bem triste kkk rindo de nervoso.
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ExcluirNossa, Joyce, me identifiquei mto com a parte da "boa filha". A gnt é criada pra ser util, né? Se nao for util, parece q nao tem valor. Esse livro do Ishiguro é um espelho mto cruel da nossa realidade.
ResponderExcluirLivro maravilhoso. Filme nem tanto rsrs
Excluir"A boa mulher" q nunca aprendeu a dizer nao. Vc descreveu minha vida inteira num parágrafo.
ResponderExcluirA de todas nós
ExcluirVc disse q concordou com ele, mas no fundo, vc se sente uma dessas "doadoras" tb? A gnt passa a vida soltando a mao de quem ama msm, a vida é uma sequencia de perdas. Mas escrever sobre isso ajuda a nao enlouquecer, imagino. Abs e força ai na caminhada.
ResponderExcluirSim me sinto. Mas não sei mais separar o que foi dele e o que é meu na análise. Já faz tempo e o texto é novo.
ExcluirJoyce, que texto! Senti um nó na garganta do começo ao fim. A forma como você entrelaçou a sua história com a do livro é de uma sensibilidade que machuca de tão linda. Quando você fala sobre "doar partes de nós e ainda agradecer pela oportunidade", parece que você está descrevendo a vida de tantas mulheres que conheço, inclusive a mim mesma. Essa coisa de ser a "boa filha", a "boa funcionária" e esquecer quem a gente é... doeu ler, mas doeu porque é verdade. Obrigada por colocar em palavras o que muitas vezes a gente só sente.
ResponderExcluirJoyce, a parte sobre a perda me pegou de jeito. "A vida, implacável, nos obriga a soltar as mãos de quem amamos." É tão difícil aceitar isso, não é? Ver as pessoas se distanciando, seja pela vida ou pela morte, e continuar caminhando. Obrigada por compartilhar essa história. Saber que não estamos sozinhos nesse sentimento de abandono e de processar o passado já torna a caminhada um pouco menos solitária. Sua coragem em expor sua vulnerabilidade é inspiradora.
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