Quando
Ted terminou de falar, pousei a xícara de café na mesa e peguei o livro.
Quando
li Não Me Abandone Jamais, senti algo de insuportavelmente familiar naquele
mundo de cópias programadas para morrer, fingindo viver na esperança de que o
simulacro bastasse. Na doçura devastadora de Kathy, agarrando-se a cada pequeno
momento, tentando preservá-lo para sempre na linguagem.
A
ingenuidade de Kathy me destruiu, ao testemunhar sua crença de que o amor seria
suficiente para adiar a morte. Assisti-la agarrar-se a esta fé inabalável,
nessa necessidade cega de acreditar que o amor vale alguma coisa diante do
inevitável.
No
entanto, essa crença é apenas um mecanismo de defesa. Uma ilusão necessária
para suportar o fardo da finitude. O subconsciente cria essa fantasia para
proteger a mente diante de um colapso iminente, saciando nossa necessidade
profunda de conexão enquanto segurança existencial fantasiosa.
Por
isso, o seu pedido — "não me abandone jamais" — não é um apelo ao
amado, mas a si mesma. À esperança. À vida.
Ficamos
em silêncio por um tempo, saboreando o café. Ted me observou, se levantou e
levou o livro até o caixa. A moça embalou-o em silêncio num saco de papel
pardo. Ao sairmos, ele me estendeu o pacote.
Olhei
para ele. Ted enfiou as mãos nos bolsos, desviou o olhar para a rua antes de
voltar a encarar-me. Inclinou-se ligeiramente e disse, com uma voz baixa:
—
Você consegue. Eu tô aqui.
E,
naquele instante, contra toda a lógica, eu acreditei.
Ele
deu um passo para trás, ajeitou a mochila no ombro. Acenou com a cabeça, um
movimento pequeno. Virou-se e seguiu caminho, desaparecendo na direção de sua
casa.
Fiquei
parada na calçada, segurando o livro contra o peito. Respirei fundo. O ar
encheu meus pulmões, saiu, e entrou de novo, mais calmo. Senti o peso áspero da
capa contra a pele, uma âncora naquele turbilhão de emoções.
Sozinha,
retomei meu caminho em direção a casa da minha tia. A cidade ao redor seguia
seu ritmo impessoal, enquanto me movia lentamente através dela.

"O pedido não é um apelo ao amado, mas a si mesma". Que frase! Me arrepiei inteira.
ResponderExcluir"Perfeita a sua leitura do Ishiguro! Acho que pouca gente pega essa nuance de que a crença da Kathy não é sobre o outro, mas sobre ela mesma. Ela precisa acreditar na 'doação' para suportar a própria finitude. E que presente simbólico o Ted te deu. Ele não te deu um livro sobre como ser feliz, ele te deu um livro que valida a sua angústia e diz: 'eu vi você nessa história, e ainda assim, você consegue'. É um presente de quem te entende de verdade."
ResponderExcluirJoyce, que texto lindo. Eu vi o filme Não Me Abandone Jamais há uns anos e lembro de ter sentido exatamente esse incômodo essa sensação de que a Kathy estava se enganando mas ao mesmo tempo que era o único jeito dela sobreviver. A forma como você conectou a história do livro com o seu momento, com o silêncio e o gesto do Ted, ficou tão real. Dá pra sentir o peso daquele livro nas suas mãos. Me arrepiei. Obrigada por compartilhar.
ResponderExcluirPior que é verdade sua analise sobre a ilusao do amor ser mecanismo de defesa ta muito certa. agente fica repetindo nao me abandone pro outro mas o eco disso la dentro é so um pedido desesperado pra nossa propria esperança nao abandona a gente. falou tudo!!
ResponderExcluirJoyce, ler você é sempre um exercício de coragem. A forma como entrelaça sua própria história com Não Me Abandone Jamais me fez revisitar o filme (não li o livro) com outros olhos. Essa ideia de que fomos ensinadas a doar partes de nós e ainda agradecer por isso ficou na minha cabeça.
ResponderExcluirAssisti-la agarrar-se a esta fé inabalável, nessa necessidade cega de acreditar que o amor vale alguma coisa diante do inevitável. - somente quem já viu isso na sua frente entende essas palavras
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