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Mentor Imperfeito (17)

Acordei mergulhada em um silêncio inquieto. Um cheiro quente de café recém passado insinuava-se pelo quarto, misturado à voz baixa da minha tia que acompanhava a música do rádio.

“O carro de boi lá vai, gemendo lá no estradão / Suas grandes rodas fazendo, profundas marcas no chão / Vai levantando poeira, poeira vermelha, poeira / Poeira do sertão.”

Aquela estrofe de Poeira na voz de Pena Branca e Xavantinho bastou para eu entender que já não estava na casa dos meus pais. Ali, cada detalhe anunciava uma rotina nova, ainda sem forma. Fiquei deitada por alguns minutos, tentando reconhecer meu corpo naquele espaço estranho.

Quando finalmente me levantei e saí do quarto, ela estava na cozinha, de costas, mexendo uma colher dentro da pequena panela onde esquentava leite. O vapor subia e se desfazia assim que tocava a luz pálida que entrava pela janela. Ela virou o rosto de leve apenas para confirmar que eu havia acordado. Avisou que o café estava quase pronto e indicou que eu me sentasse. Com um gesto simples, colocou diante de mim um copo de requeijão reaproveitado.

Eu não sabia o que dizer e ela parecia não se incomodar com a falta de conversa. Enquanto eu passava margarina no pão, minha tia rompeu o bloqueio, querendo saber se o meu sono fora bom. Respondi que sim, embora não fosse exatamente verdade. Depois de uma mordida, ela me perguntou o que eu pretendia fazer dali em diante.

Respirei fundo, tentando recolher as partes soltas, e expliquei que não tinha pensado em nada além de sobreviver à noite anterior. Disse que não tinha dinheiro nem documentos. Que tudo estava no quarto que já não era meu. Que meus pais não atenderiam a porta. Talvez tivessem destruído tudo. Não havia como prever. 

Falei também sobre o emprego que eu havia perdido e sobre como isso complicava qualquer tentativa de recomeço.

Ela não me interrompeu.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. "Poeira do sertão..." 🎶 Nossa Joyce, me deu um nó na garganta. Minha mãe ouvia essa música todo dia de manhã.

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  2. Gente, que agonia! Eu já estaria surtando sem meus documentos.

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  3. Adorei a presença da música "Poeira" no texto, trouxe uma camada tão brasileira, tão raiz, um contraste lindo com a dureza da vida na cidade grande. Você vai longe, Joyce. Com essa escrita e essa coragem, vai longe.

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  4. A cena final, com vocês duas na cozinha, ela te ouvindo falar sobre a falta de documentos e planos sem te interromper, é de uma potência imensa. Ela sabe que o primeiro passo é só existir naquele espaço. O resto vem.

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