Comecei
a falar, e as palavras saíram misturadas com a vontade de chorar, que eu vinha
segurando desde a casa dos meus pais. Contei que minha mãe não tinha nem aberto
o portão. Que ela ficou parada, fria, me olhando pelo vão, uma estranha
indesejada à sua porta.
Minha
tia estendeu o braço e segurou minha mão por cima da mesa. Apertou meus dedos,
aguardando minha respiração serenar. Sua palma era quente e áspera, cheia de
calos, mas o toque era gentil.
Com
a voz mansa, afirmou que eu ficaria ali pelo tempo que fosse preciso. Garantiu
que daríamos um jeito nos documentos, que eu não estava sozinha, que não fizera
nada de errado e, principalmente, que não havia motivo para vergonha.
A
desordem aconchegante da cozinha ao nosso redor exibia potes de vidro
espremidos na prateleira: alguns com etiquetas escritas à mão, outros revelando
o conteúdo somente pela própria transparência. Um pano de prato com bordado
pendia torto no forno e, em cima da geladeira, uma caixa de remédios, misturada
com boletos para pagar, disputava espaço com um vaso de violetas. Na porta,
notei um calendário repleto de anotações, consultas médicas, aniversários e
lembretes triviais.
Aquela
casa carregava seus próprios fantasmas, as próprias cicatrizes.
Minha tia levantou-se e foi até a bancada; trouxe a forma de alumínio e a colocou na mesa entre nós duas. O cheiro de canela e açúcar abraçou a cozinha. Cortou uma
fatia generosa, que se desmanchou no prato, e a empurrou na minha direção,
dizendo que comida quentinha sempre ajudava a pensar melhor.
O
sol da tarde entrava pela janela, criando desenhos de luz na toalha. Dava para
ver as partículas de poeira no feixe dourado; lentas e leves, embaladas pelo
som do relógio, e pelo canto de um passarinho no quintal.
Minha
tia lamentou que o bolo tivesse ficado um pouco mais "moreninho" do
que ela gostava. Conversamos sobre a vizinha, o preço do pó de café, e a novela;
eu não assistia, mas ouvi cada detalhe da trama.
Olhei para a sala conjugada. Havia um chinelo esquecido perto do sofá, e uma manta embolada no braço da poltrona. Numa das cadeiras, uma pilha de revistas servia de cama para um gato gordo, imerso em sono profundo. O animal não pertencia a ninguém da casa.

🥮 "Comida quentinha ajuda a pensar melhor" é a maior verdade do mundo. Esse gato intruso dormindo na revista me fez rir... bicho sabe onde tem energia boa, viu?
ResponderExcluir"A desordem aconchegante". Que expressão perfeita.
ResponderExcluirJoyce, eu amei o gato gordo! 🐈 kkkkk.
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