Pular para o conteúdo principal

Mentor Imperfeito (21)

Comecei a falar, e as palavras saíram misturadas com a vontade de chorar, que eu vinha segurando desde a casa dos meus pais. Contei que minha mãe não tinha nem aberto o portão. Que ela ficou parada, fria, me olhando pelo vão, uma estranha indesejada à sua porta.

Minha tia estendeu o braço e segurou minha mão por cima da mesa. Apertou meus dedos, aguardando minha respiração serenar. Sua palma era quente e áspera, cheia de calos, mas o toque era gentil.

Com a voz mansa, afirmou que eu ficaria ali pelo tempo que fosse preciso. Garantiu que daríamos um jeito nos documentos, que eu não estava sozinha, que não fizera nada de errado e, principalmente, que não havia motivo para vergonha.

A desordem aconchegante da cozinha ao nosso redor exibia potes de vidro espremidos na prateleira: alguns com etiquetas escritas à mão, outros revelando o conteúdo somente pela própria transparência. Um pano de prato com bordado pendia torto no forno e, em cima da geladeira, uma caixa de remédios, misturada com boletos para pagar, disputava espaço com um vaso de violetas. Na porta, notei um calendário repleto de anotações, consultas médicas, aniversários e lembretes triviais.

Aquela casa carregava seus próprios fantasmas, as próprias cicatrizes.

Minha tia levantou-se e foi até a bancada; trouxe a forma de alumínio e a colocou na mesa entre nós duas. O cheiro de canela e açúcar abraçou a cozinha. Cortou uma fatia generosa, que se desmanchou no prato, e a empurrou na minha direção, dizendo que comida quentinha sempre ajudava a pensar melhor.

O sol da tarde entrava pela janela, criando desenhos de luz na toalha. Dava para ver as partículas de poeira no feixe dourado; lentas e leves, embaladas pelo som do relógio, e pelo canto de um passarinho no quintal.

Minha tia lamentou que o bolo tivesse ficado um pouco mais "moreninho" do que ela gostava. Conversamos sobre a vizinha, o preço do pó de café, e a novela; eu não assistia, mas ouvi cada detalhe da trama.

Olhei para a sala conjugada. Havia um chinelo esquecido perto do sofá, e uma manta embolada no braço da poltrona. Numa das cadeiras, uma pilha de revistas servia de cama para um gato gordo, imerso em sono profundo. O animal não pertencia a ninguém da casa.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. 🥮 "Comida quentinha ajuda a pensar melhor" é a maior verdade do mundo. Esse gato intruso dormindo na revista me fez rir... bicho sabe onde tem energia boa, viu?

    ResponderExcluir
  2. "A desordem aconchegante". Que expressão perfeita.

    ResponderExcluir
  3. Joyce, eu amei o gato gordo! 🐈 kkkkk.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...