Terminei
o bolo e comecei a juntar os copos para levar à pia, mas minha tia fez um gesto
com a mão, pedindo para eu deixar pra lá. Apoiou-se no balcão, alcançou o maço
de cigarros, puxou um e o prendeu entre os lábios. Um clique seco. A chama
cintilou e tocou a ponta, que acendeu num brilho laranja intenso. Ela tragou e
soltou a fumaça devagar, inclinando a cabeça para trás. O rastro cinza subiu
reto no começo, para depois se desfazer em espirais preguiçosas.
Fiquei
ali, sentindo o cheiro se espalhar. Meu corpo reagiu antes de qualquer decisão;
levei a mão até minha pequena bolsa e tateei o meu próprio maço. Minha tia
sorriu levemente, levantou-se e, com afabilidade, chamou-me para a varanda,
comentando que o ar da tarde estava parado e que um pouco de vento nos faria
bem.
Eu
me levantei e a segui pela sala. O gato na cadeira esticou-se preguiçosamente,
ignorando nossa passagem. Minha tia olhou para ele e disse que devia ser de
algum vizinho, mas que não adiantava pô-lo para fora: ele sempre voltava.
A
varanda era pequena e aconchegante, com vasos de ervas num canto e duas
cadeiras de vime desbotadas pelo sol. Fiquei de pé, encostada no batente da
porta, observando. Ela apoiou-se na grade e inalou profundamente; a fumaça saiu
de seus pulmões numa nuvem densa e lenta, dissolvendo-se no ar quente. Ficou
ali, fitando o horizonte entre os prédios, enquanto eu sentia o aroma do
tabaco: um cheiro terroso, amadeirado, estranhamente reconfortante.
Ela
virou-se, apoiando os quadris na grade. Disse que eu não precisava ficar de pé,
que podia me sentar. Acomodei-me na outra cadeira de vime, que rangeu
suavemente sob meu peso. Então, sem olhar diretamente para mim, estendeu o maço
na minha direção. Meu peito deu um salto discreto, sentindo a vontade crescer e
pedir passagem.
Hesitei
por uma fração de segundo. Estendi a mão e tirei um cigarro.
Quando
ergui os olhos, os dela me esperavam. Inclinou-se para frente, segurando o
isqueiro. Levei o cigarro à boca e aproximei a ponta do fogo. A primeira
tragada trouxe aquela sensação familiar de ardência suave na garganta, o gosto
amadeirado que, de algum modo, acalmava. A fumaça preencheu-me a boca e
garganta antes de ser expelida, juntando-se à dela no ar parado da varanda.
Fumamos lado a lado, observando a tarde tingir tudo de âmbar.
Ela
voltou a se apoiar na grade e perguntou desde quando.
Eu
respondi que fazia algum tempo. Que tinha começado sem pensar muito e depois o
hábito ficou. Minha tia sorriu de um jeito contido. Comentou que certas coisas
a gente aprende sozinho, outras herda sem perceber. Meu corpo foi relaxando aos
poucos.
Ela
perguntou se meus pais sabiam. Respondi que não tinham certeza, mas
desconfiavam. Minha tia deu uma risada curta, quase sem som, e disse que
entendia perfeitamente. Contou que, quando morava com meus avós, também fumava
escondido.
Ela se sentou ao meu lado. O cigarro queimava devagar entre meus dedos. Observei a ponta acesa, aquele vermelho vivo pulsando a cada tragada. Minha tia apoiou o cotovelo no braço da cadeira e segurou o cigarro próximo ao rosto, a fumaça subindo em linha reta ao lado de sua bochecha. Disse-me que era bom saber que eu tinha uma válvula de escape. Que era perigoso guardar tudo dentro de nós mesmas.

Joyce do céu, essa cena lavou minha alma! 🚬 Às vezes um cigarro compartilhado diz mais que mil conselhos. Sua tia é muito "prafrentex", gostei de ver. "Certas coisas a gente herda sem perceber" essa frase dela foi cirúrgica.
ResponderExcluirPois é
Excluiro gato nem ligou kkkk o bicho é o dono da casa msm! Mas sério Joyce, esse momento de vcs duas fumando juntas foi muito forte.
ResponderExcluirBota pra fora e ele voltava kkk
ExcluirMuito top este capítulo. Está foto tem alguma coisa de real?
ResponderExcluir100% IA. coloquei o texto e pedi pra ela gerar uma imagem
Excluir❤️❤️🥰🥰🥰🥰
ResponderExcluirQue crônica sensorial! Dá para sentir o rangido da cadeira de vime, ver a fumaça se desfazendo no ar quente e, principalmente, sentir aquele misto de hesitação e alívio. Você conseguiu transformar um momento aparentemente banal em uma cena cinematográfica e profundamente humana. A construção da cumplicidade entre você e a sua tia é magistral, cheia de silêncios que dizem tudo.
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