A casa estava quieta. Fui até a
sala e percorri os dedos pelas lombadas na estante, sem pressa, até encontrar
Elis & Tom, 1974. Tirei da capa com cuidado, segurei o disco pelas bordas e
o encaixei no eixo. Baixei a agulha devagar até sentir o momento exato em que
ela afundou no sulco: primeiro o chiado quente; depois os estalos; só então a
música. O violão, o contrabaixo e a voz de Elis entrando fundo, ferindo o
silêncio do recinto. “É pau, é pedra, é o fim do caminho.”
A batida do violão e o piano
subiram, e logo a voz de Elis começou a desfiar os versos. Fechei os olhos.
Deixei que o ritmo circular me envolvesse. O som não vinha apenas das caixas;
ele parecia vir do chão, subindo pelas solas dos meus pés.
Meus ombros cederam. Inclinei a
cabeça para trás, sentindo o peso do cabelo contra a nuca, e permiti que
a música ocupasse espaço. Sorri sozinha na meia luz da sala, sentindo o relevo
analógico de cada nota.
O celular vibrou no chão. A tela
do celular iluminou o ambiente por um instante, “durma bem” e apagou. Sentei no
chão com as costas apoiadas no sofá e fechei os olhos.
Não demorou para começar Só Tinha
De Ser Com Você. Fiquei imóvel, escutando, deixando os versos me alcançarem um
por um. “O amor que chegou para dar / O que ninguém deu pra você”. Elis
repetiu. O som dobrou-se sobre si mesmo. Eu não me movi.
Minhas mãos começaram a tremer.
Senti os dedos frios contra os joelhos, a pele dos braços arrepiando-se
devagar. O peito subia e descia em respirações curtas. Tentei me ancorar na
música, mas ela continuava avançando, verso por verso, em cada lugar que estava
aberto.
Me abracei. Comecei a balançar o
corpo devagar, para frente e para trás, sem pensar. As lágrimas vieram quentes
e silenciosas, molhando a camiseta. O rosto ardia, e eu deixei. Comecei a
cantar, repetidamente, com a voz embargada: “Se ao menos pudesse saber / Que eu
sempre fui só de você / Você sempre foi só de mim”. Aos poucos, em sincronia
com a Elis.
Enxuguei o rosto com a manga,
recolhi o celular do chão e digitei: “Você também. Te amo”. Enviei com os dedos
ainda trêmulos.
Foi quando vi minha tia. Ela
estava parada na entrada da sala, um roupão escuro e os pés descalços no piso
frio, me olhando.
Ri sem querer.
Levantei-me devagar, fui até o
toca-discos e levantei a agulha. Caminhei para o quarto com passos leves,
encolhendo os ombros e de rosto quente. Minha tia ficou na sala, observando enquanto
eu me recolhia.

Joyce, você me fez chorar junto com você agora. 😭 "Só Tinha De Ser Com Você" é de quebrar qualquer um. Ver você cantando com a Elis, se abraçando. Que cena linda.
ResponderExcluir"O amor que chegou para dar o que ninguém deu pra você". Orgulho de você, Joyce! ❤️
ResponderExcluiro som vindo do chão, o chiado do vinil não existe nada mais real que isso. O digital é limpinho demais, a gente precisa desse estalo da agulha pra sentir que a vida tem textura. Que vibe.
ResponderExcluir"É o fim do caminho". Esse choro na sala da sua tia foi o batismo da sua nova vida.
ResponderExcluirÉ, só eu sei
ResponderExcluirQuanto amor eu guardei
Sem saber que era só prá você
É, só tinha de ser com você
ResponderExcluirHavia de ser prá você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que a gente não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu pra você
É, você que é feita de azul
ResponderExcluirMe deixa morar nesse azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonita demais
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim