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Degredo (10)

A casa estava quieta. Fui até a sala e percorri os dedos pelas lombadas na estante, sem pressa, até encontrar Elis & Tom, 1974. Tirei da capa com cuidado, segurei o disco pelas bordas e o encaixei no eixo. Baixei a agulha devagar até sentir o momento exato em que ela afundou no sulco: primeiro o chiado quente; depois os estalos; só então a música. O violão, o contrabaixo e a voz de Elis entrando fundo, ferindo o silêncio do recinto. “É pau, é pedra, é o fim do caminho.”

A batida do violão e o piano subiram, e logo a voz de Elis começou a desfiar os versos. Fechei os olhos. Deixei que o ritmo circular me envolvesse. O som não vinha apenas das caixas; ele parecia vir do chão, subindo pelas solas dos meus pés.

Meus ombros cederam. Inclinei a cabeça para trás, sentindo o peso do cabelo contra a nuca, e permiti que a música ocupasse espaço. Sorri sozinha na meia luz da sala, sentindo o relevo analógico de cada nota.

O celular vibrou no chão. A tela do celular iluminou o ambiente por um instante, “durma bem” e apagou. Sentei no chão com as costas apoiadas no sofá e fechei os olhos.

Não demorou para começar Só Tinha De Ser Com Você. Fiquei imóvel, escutando, deixando os versos me alcançarem um por um. “O amor que chegou para dar / O que ninguém deu pra você”. Elis repetiu. O som dobrou-se sobre si mesmo. Eu não me movi.

Minhas mãos começaram a tremer. Senti os dedos frios contra os joelhos, a pele dos braços arrepiando-se devagar. O peito subia e descia em respirações curtas. Tentei me ancorar na música, mas ela continuava avançando, verso por verso, em cada lugar que estava aberto.

Me abracei. Comecei a balançar o corpo devagar, para frente e para trás, sem pensar. As lágrimas vieram quentes e silenciosas, molhando a camiseta. O rosto ardia, e eu deixei. Comecei a cantar, repetidamente, com a voz embargada: “Se ao menos pudesse saber / Que eu sempre fui só de você / Você sempre foi só de mim”. Aos poucos, em sincronia com a Elis.

Enxuguei o rosto com a manga, recolhi o celular do chão e digitei: “Você também. Te amo”. Enviei com os dedos ainda trêmulos.

Foi quando vi minha tia. Ela estava parada na entrada da sala, um roupão escuro e os pés descalços no piso frio, me olhando.

Ri sem querer.

Levantei-me devagar, fui até o toca-discos e levantei a agulha. Caminhei para o quarto com passos leves, encolhendo os ombros e de rosto quente. Minha tia ficou na sala, observando enquanto eu me recolhia.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, você me fez chorar junto com você agora. 😭 "Só Tinha De Ser Com Você" é de quebrar qualquer um. Ver você cantando com a Elis, se abraçando. Que cena linda.

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  2. "O amor que chegou para dar o que ninguém deu pra você". Orgulho de você, Joyce! ❤️

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  3. o som vindo do chão, o chiado do vinil não existe nada mais real que isso. O digital é limpinho demais, a gente precisa desse estalo da agulha pra sentir que a vida tem textura. Que vibe.

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  4. "É o fim do caminho". Esse choro na sala da sua tia foi o batismo da sua nova vida.

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  5. É, só eu sei
    Quanto amor eu guardei
    Sem saber que era só prá você

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  6. É, só tinha de ser com você
    Havia de ser prá você
    Senão era mais uma dor
    Senão não seria o amor
    Aquele que a gente não vê
    O amor que chegou para dar
    O que ninguém deu pra você

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  7. É, você que é feita de azul
    Me deixa morar nesse azul
    Me deixa encontrar minha paz
    Você que é bonita demais
    Se ao menos pudesse saber
    Que eu sempre fui só de você
    Você sempre foi só de mim

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