Ficamos sentados por algum tempo
depois disso. Minha tia vasculhava a bolsa. Ted batia os dedos sobre a mesa. A
náusea subiu rápida. Levantei-me e pedi licença. Minha tia perguntou se eu
estava bem. Respondi que sim, que só precisava ir ao banheiro.
Saí da sala e percorri o corredor
até encontrar a placa. Entrei, tranquei a porta e apoiei as mãos na pia.
Respirei fundo, esperando que o mal-estar recuasse. O corolário permanecia
suspenso. Abri a torneira, joguei água no rosto e me encarei no espelho.
Quando retornei, minha tia
conversava com a amiga. As duas interromperam a conversa ao me ver. Sentei-me
novamente. A amiga se virou para mim e explicou que haviam conseguido uma
viatura e um policial para nos acompanhar. Que poderíamos ir naquele momento,
se eu concordasse.
Levantamos e seguimos pelos
corredores até a saída. Do lado de fora havia uma viatura estacionada. Um jovem
policial esperava encostado no capô, postura tranquila de quem já repetira
aquela tarefa muitas vezes. Disse que nos acompanharia, que seria uma diligência
simples.
Assenti. Mas a palavra ficou na
minha cabeça enquanto atravessávamos o estacionamento. Simples.
O veículo ganhou a rua. Eu não
conseguia me livrar da sensação de ser uma fraude. Talvez minha mãe tivesse
razão. Talvez eu não valesse nada e só estivesse recebendo o que merecia. Ted
seguia no banco traseiro da viatura comigo. Minha tia tinha ido no próprio
carro, atrás de nós.
Durante o trajeto, o policial
comentou que previa resistência por parte dos meus pais. Ele, ao tentar
encontrar alguma lógica, supôs que meus pais seriam contra o relacionamento
pelo fato de Ted morar em um bairro mais afastado, mencionando que as pessoas
são preconceituosas e rotulam as outras sem critério. No entanto, quando
explicamos que Ted tinha diploma universitário, emprego efetivo e morava em um
bairro de classe média, notei uma confusão discreta no policial. Ele permaneceu
alguns segundos em silêncio, reorganizando a leitura que fizera de todos nós
até ali.
Quando estacionou diante do
prédio, permaneci alguns segundos olhando para cima. Contei os andares até o
terceiro. As janelas estavam fechadas, as cortinas corridas. Não havia qualquer
sinal de presença. Minha tia chegou logo depois e estacionou atrás da viatura.
Com voz pausada e grave, o
policial aconselhou Ted a ficar lá embaixo; não queria arriscar um conflito. Em
silêncio, Ted apenas assentiu. Ele disse que esperaria por ali e se recolheu no
supermercado vizinho ao prédio.
Seguimos até o portão. Apertei o
botão do interfone e esperei. Ninguém respondeu. Apertei novamente, mantendo o
dedo pressionado por mais tempo. O interfone continuava mudo.

Joyce, ler você se sentindo uma fraude no banco traseiro da viatura foi devastador. É impressionante como a violência de certas palavras dos pais continua viva dentro da gente, mesmo quando tudo ao redor já mostra o contrário.
ResponderExcluirAnna, sua leitura é incrivelmente profunda. Obrigada por essa empatia tão grande!
ExcluirA confusão silenciosa do policial ao perceber que a situação não cabia no preconceito que ele imaginou foi um detalhe excelente, Joyce. Mostra como as pessoas tentam encaixar a dor alheia em explicações fáceis.
ResponderExcluirMarcos, que observação perspicaz. Fico feliz que você tenha notado esse detalhe, ele diz muito sobre a situação. Obrigada por essa leitura atenta!
Excluir"A sensação de ser uma fraude". Joyce, isso é o que eles enfiaram na sua cabeça a vida toda, não acredita nisso! 💔 O interfone mudo no final do trecho cria uma tensão absurda, Joyce. Dá a sensação de que até o prédio participa dessa suspensão, obrigando você a encarar o vazio antes de qualquer resposta.
ResponderExcluirKarina seu comentário foi forte. Obrigada por entender tão bem!
ExcluirJoyce, meu Deus, eu não consigo nem respirar lendo isso! 😰 Esse silêncio no interfone dói mais que um grito. Eles sabem que você está aí, com certeza estão olhando por trás da cortina.
ResponderExcluirBia 😰 Esse silêncio no interfone é ensurdecedor. Obrigada por sentir comigo!
ExcluirEssa náusea voltando justo antes de seguir para o apartamento mostrou como o corpo guarda memória, Joyce. Às vezes ele sabe antes da consciência que estamos prestes a tocar numa ferida antiga.
ResponderExcluirAndré, sua análise sobre a náusea e a memória do corpo é brilhante. Fico impressionada com a sua capacidade de captar essas nuances. Obrigada por essa leitura tão profunda!
ExcluirO policial percebendo que não existe lógica no ódio dos seus pais foi um momento importante. A imagem de você contando os andares até o terceiro foi linda e angustiante ao mesmo tempo. Eles querem que você se sinta pequena!
ResponderExcluirObrigada por essa leitura tão sensível e precisa!
ExcluirEsta imagem é somente IA, ou tem algum traço verdadeiro nela, tipo foi modificada mas o momento existiu.
ResponderExcluirTrata-se de uma imagem baseada em uma foto real, mas que sofreu alterações significativas.
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