Pular para o conteúdo principal

Degredo (5)

Há uma certa injustiça na forma como a memória trata os espaços. O apartamento dos meus pais eu consigo reconstituir objeto por objeto; precisão esta que já se perde para as feições de quem amei. As estantes de carvalho escuro com os livros alinhados e intocados. O cheiro de cera e madeira. As cortinas grossas barrando a luz. Os móveis dispostos em uma rigidez que anulava qualquer tentativa de movimento.

Existe uma teoria de que cada vez que acessamos uma lembrança, nós a alteramos. Faz sentido: nunca gostei de voltar àquela sala, mas sempre retornei àquele dia.

A porta estava entreaberta. Quando atravessei o umbral, meu pai estava no centro do tapete com os braços cruzados. Minha tia estava diante dele, as mãos cortando o ar e as palavras vindo em fluxo contínuo. Injustiça. Vergonha. Exagero. Ele não respondia.

O policial posicionou-se no canto da sala, quieto. Apenas vigiava. Foi quando Ted entrou.

Duas ordens de realidade colidiram. Meu pai fixou os olhos nele. Vi as veias da testa pulsarem sob a pele. A voz saiu rouca, mas perigosa: Eu não levaria uma única peça da casa. O policial deu um passo à frente. A voz foi seca, sem inflexão.

Objetos pessoais: documentos e vestimentas. Só isso.

Só me restou, então, convencer um policial de vinte e poucos anos de que as roupas no armário eram minhas.

Fui ao quarto. Abri as portas do guarda-roupa. Os cabides rangeram. Meus dedos tropeçavam no metal, que batia contra o carvalho. Eu socava camisas e calças dentro da mala sem qualquer cuidado. As costuras cediam sob a pressa, enquanto, pelo corredor, podia ver minha mãe simplesmente sentada à mesa da cozinha.

Varri o topo da escrivaninha para dentro da bolsa: carregador, fone de ouvido, pen-drive. Os objetos amassaram os currículos contra o isqueiro e o batom, expostos no fundo.

Puxei o zíper.

Meu pai desviou o olhar de mim para o rosto de Ted. Ele avançou com os punhos cerrados e o corpo inclinado. Gritou que ele saísse da propriedade, que não tinha o direito de estar ali.

Ted não recuou. O policial chegou antes do primeiro golpe. Envolveu o braço do meu pai com firmeza, interpondo o próprio corpo, e instruiu Ted a esperar do lado de fora.

Fechei a mala. Arrastei-a pelo piso encerado sem me importar com os riscos que o couro deixava para trás. No corredor, meu pai se soltou do policial e foi atrás de Ted. As vozes subiam pelo vão da escada enquanto eles desciam os degraus. Num dos patamares, Ted parou. Ergueu o rosto e desafiou meu pai a bater. Disse que, se assim o fizesse, seria levado para a cadeia ali mesmo.

O policial se debruçou sobre o corrimão. A voz desceu contra o concreto: mandou que meu pai retornasse ao apartamento naquele instante ou seria conduzido à delegacia sob custódia.

Ficaram ali suspensos os dois: meu pai no degrau, Ted no patamar. Passei por eles de cabeça baixa, sem olhar, com a mala batendo em cada degrau.

Eu demorei a compreender que aquele prédio continuou; mesmo depois que deixei de ter acesso a ele. Durante anos, ainda me via incluída no funcionamento do elevador, na rotina das luzes automáticas, no giro lento da chave. Somente agora, ao recordar aquela tarde, percebo que, naquele dia, eu já me encontrava do lado de fora.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Esse foi seu melhor texto! É melhor do que muita coisa que é publicado. Você está de parabéns!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo com você! Acredito que esse foi o melhor texto que já escrevi aqui no blog. Gosto de pensar que estou melhorando a cada dia. Além disso, o momento foi muito marcante e pedia uma atenção especial. Muito obrigada! São leitores como você que me dão vontade de continuar escrevendo.

      Excluir
  2. Cida Silveira19 abril, 2026

    Joyce, eu li esse post com a mão no peito! 😭 A imagem da sua mãe sentada na cozinha enquanto o mundo caía no corredor me cortou ao meio. Que tristeza uma mãe que se anula assim. Mas você conseguiu! A mala pode estar riscando o chão, mas cada risco desse é um passo pra longe desse inferno. Força, guria!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada. É doloroso compartilhar, é doloroso voltar aquela dia.

      Excluir
  3. Joyce, essa ideia de lembrar o apartamento com mais precisão do que os rostos me atingiu muito. É perturbador perceber como a memória escolhe o que preservar, quase como se os espaços fossem mais suportáveis que as pessoas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Anna, sua observação sobre a memória é tão verdadeira e dolorosa. É perturbador como a memória escolhe o que preservar, e como os espaços podem ser mais suportáveis que as pessoas. Sua capacidade de captar essas nuances me ajuda a entender melhor o que vivi. Obrigada por essa leitura tão sensível e profunda!

      Excluir
  4. A sua mãe sentada na cozinha enquanto tudo acontece me marcou profundamente, Joyce. Esse silêncio dela pesa tanto quanto os gritos do seu pai. É uma ausência que grita.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada por compartilhar sua leitura!

      Excluir
  5. O confronto na escada foi uma das cenas mais fortes do seu blog até agora. Ted não recua, seu pai avança, e o policial sustenta aquele limite. Fica tudo suspenso, como você mesma descreveu.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sua leitura capturou a tensão e a complexidade do momento. Obrigada por essa análise tão precisa!

      Excluir
  6. Essa última percepção de que você já estava do lado de fora naquele dia é dolorosa demais, Joyce. Não foi uma saída gradual, foi um corte. E o mais impressionante é como você só consegue nomear isso agora, ao revisitar.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É impressionante como você conseguiu captar a essência dessa epifania. Muito obrigada por essa leitura tão atenta e profunda!

      Excluir
  7. "As costuras cediam sob a pressa". Essa frase diz tudo sobre o seu estado de espírito. Você não estava pegando roupas, estava resgatando os restos do seu naufrágio. O Ted foi gigante ao não recuar. Ele mostrou pro seu pai que o medo não mora mais em você.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bia, sua análise sobre as costuras cedendo sob a pressa é perfeita.

      Excluir
  8. o policial mandando o seu pai subir ou ia em cana... lavei a alma agora! kkkk. O cara achou que era o dono da verdade dentro do apartamento, mas esqueceu que a rua tem lei. Joyce, o som da mala batendo no degrau é o hino da sua vitória. Não olha pra trás.

    ResponderExcluir
  9. "Eu já me encontrava do lado de fora". Essa percepção final é o que a gente chama de epifania. O lugar físico não importa mais quando a gente já foi expulsa emocionalmente. Você resgatou seu diploma, sua carteira e, principalmente, a sua dignidade. O carvalho escuro ficou pra trás, agora o horizonte é seu.

    ResponderExcluir
  10. A teoria de que a memória altera o que acessamos é real, mas o que você viveu ali foi concreto demais. O desafio do Ted no patamar da escada foi o ponto de virada: ali a autoridade do seu pai ruiu de vez. Agora você tem seus documentos. Você existe "formalmente" e "internamente" de novo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Roberto, sua reflexão sobre a memória e a concretude do que vivi é muito pertinente. A teoria de que a memória altera o que acessamos é real, mas o que aconteceu ali foi inegável. O desafio do Ted no patamar da escada foi, de fato, o ponto de virada. A autoridade do meu pai ruiu, e agora eu tenho meus documentos, existo 'formalmente' e 'internamente' de novo. Obrigada por essa análise tão lúcida!

      Excluir
  11. Joyceeee, que tensão! 🚔 Eu imaginei a cena todinha, parecia final de filme. Que bom que vc pegou o carregador e o batom... parece bobagem, mas são as nossas pequenas coisas que fazem a gente se sentir em casa. Volta logo pra sua tia, come um pedaço daquele bolo e dorme 12 horas seguidas. Vc venceu! bjos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Beijos e muito obrigada pelo carinho!

      Excluir
  12. Joyce meu Deus que texto. Eu li duas vezes. A parte das roupas no armário sendo suas me quebrou como se você tivesse que provar que existia ali que tinha algo que era seu de verdade. Vc escreve de um jeito que a gente sente o cheiro da cera e o peso da mala batendo nos degrau 🤍

    ResponderExcluir
  13. Caramba Joyce. Só me restou convencer um policial de vinte e poucos anos de que as roupas no armário eram minhas essa frase ficou na minha cabeça e tão absurdo e tão real ao mesmo tempo

    ResponderExcluir
  14. Leitora antiga19 abril, 2026

    Joyce me identifiquei demais. Principalmente quando você fala que o prédio continuou funcionando sem você. É uma sensação muito louca né? A gente acha que o mundo vai parar quando a gente sai de casa daquele jeito mas não para. Dói.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Dói ver a vida continuar. É bom ver leitores antigos comentando. Por favor comente mais

      Excluir
  15. Eu tava aqui no metrô lendo e parecia que tava vendo uma cena de filme. O policial debruçado no corrimão, seu pai congelado no degrau, Ted desafiando. Você escreve muito bem, sério.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Metro é um ótimo local para ler. Muito obrigada. Se possível Rafael convide mais pessoas para ler rsrs

      Excluir
  16. Li com um nó na garganta. Eu também saí de casa assim. A diferença é que meu pai quebrou a porta do quarto. Você colocou em palavras algo que eu nunca consegui explicar aquela sensação de estar dentro e fora ao mesmo tempo. Obrigado por escrever. Me senti menos sozinho

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É bom conhecer mais pessoas com histórias parecidas. É uma dor difícil de descrever. Espero de coração que as coisas tenham melhorado abraços

      Excluir
    2. Um abraço pra vc também anônimo

      Excluir
  17. Joyce estou sem palavras. Nem sei o que comentar. Texto lindo! Super literário. Só quero te dar um abraço grande e apertado. 💔 Não consigo imaginar como deve ter sido pra você.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pela empatia ❤️❤️❤️

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...