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Mentor Imperfeito (23)

Aproveitei o momento e perguntei se ela tinha ficado com raiva do meu pai depois que foi expulsa de casa. Se tinha guardado mágoa todos esses anos.

Ela pensou um pouco antes de responder. Disse que no começo, sim; ficara muito magoada, muito ferida. Passou anos sem conseguir entender como a própria família podia virar as costas daquele jeito. Mas, com o tempo, a raiva foi passando e restou apenas a tristeza. Disse que entendia agora que os pais dela, e depois o meu pai, tinham sido criados de um jeito que não deixava espaço para diferenças. Que eles tinham medo daquilo que não conheciam, medo de não seguir as regras.

Minha tia apagou o cigarro no cinzeiro de cerâmica. Levantou-se, segurou minha mão por um instante e entrou na sala, deixando a porta entreaberta. Permaneci ali mais algum tempo, atenta ao som dos pássaros. Por fim, me levantei, entrei e, fechando a porta de correr, passei pela cadeira onde o gato continuava dormindo.

Ao me ver, minha tia ofereceu mais café, mas recusei, explicando que iria para o quarto me preparar para o banho. Ela concordou com um movimento de cabeça. Antes que eu saísse do seu campo de visão, chamou meu nome. Virei. Estava encostada na parede, com os braços cruzados, e disse apenas que um longo banho quente era importante, que o corpo precisava daquela limpeza para se reorganizar. Agradeci e segui pelo corredor; enquanto caminhava, ouvi sua voz enxotando o gato.

No quarto, tirei a rasteirinha e alinhei-a junto à parede. Abri a gaveta que minha tia deixara preparada e encontrei a roupa íntima dobrada com cuidado. Negra, rendada, quase transparente, diferente das que eu tinha, uma das peças que ela vendia às freguesas mais exigentes. Toquei o tecido por um instante, mínimo, sem costuras, e com uma nova familiaridade; confortável.

No banheiro, abri o registro do chuveiro e esperei a água esquentar. Retirei minhas roupas, dobrei-as com cuidado e as deixei sobre o balcão, atenta para que não molhassem. Quando a água ganhou força, entrei. O calor se espalhou devagar, alcançando primeiro os ombros, depois as costas. Ajustei o corpo sob o jato e permaneci ali, deixando que cada parte fosse encontrada, sem pressa. Lavei as mãos com calma, os cabelos, a pele, observando a espuma desaparecer pelo ralo. Depois de tudo terminado, fechei os olhos e fiquei ali mais tempo do que pretendia. Quando desliguei o chuveiro, a pele ainda guardava o calor, avermelhada. Enxuguei-me devagar antes de voltar ao quarto.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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