Aproveitei
o momento e perguntei se ela tinha ficado com raiva do meu pai depois que foi
expulsa de casa. Se tinha guardado mágoa todos esses anos.
Ela
pensou um pouco antes de responder. Disse que no começo, sim; ficara muito
magoada, muito ferida. Passou anos sem conseguir entender como a própria
família podia virar as costas daquele jeito. Mas, com o tempo, a raiva foi
passando e restou apenas a tristeza. Disse que entendia agora que os pais dela,
e depois o meu pai, tinham sido criados de um jeito que não deixava espaço para
diferenças. Que eles tinham medo daquilo que não conheciam, medo de não seguir
as regras.
Minha
tia apagou o cigarro no cinzeiro de cerâmica. Levantou-se, segurou minha mão
por um instante e entrou na sala, deixando a porta entreaberta. Permaneci ali
mais algum tempo, atenta ao som dos pássaros. Por fim, me levantei, entrei e,
fechando a porta de correr, passei pela cadeira onde o gato continuava
dormindo.
Ao
me ver, minha tia ofereceu mais café, mas recusei, explicando que iria para o
quarto me preparar para o banho. Ela concordou com um movimento de cabeça.
Antes que eu saísse do seu campo de visão, chamou meu nome. Virei. Estava
encostada na parede, com os braços cruzados, e disse apenas que um longo banho
quente era importante, que o corpo precisava daquela limpeza para se
reorganizar. Agradeci e segui pelo corredor; enquanto caminhava, ouvi sua voz
enxotando o gato.
No
quarto, tirei a rasteirinha e alinhei-a junto à parede. Abri a gaveta que minha
tia deixara preparada e encontrei a roupa íntima dobrada com cuidado. Negra,
rendada, quase transparente, diferente das que eu tinha, uma das peças que ela
vendia às freguesas mais exigentes. Toquei o tecido por um instante, mínimo,
sem costuras, e com uma nova familiaridade; confortável.
No
banheiro, abri o registro do chuveiro e esperei a água esquentar. Retirei
minhas roupas, dobrei-as com cuidado e as deixei sobre o balcão, atenta para
que não molhassem. Quando a água ganhou força, entrei. O calor se espalhou
devagar, alcançando primeiro os ombros, depois as costas. Ajustei o corpo sob o
jato e permaneci ali, deixando que cada parte fosse encontrada, sem pressa.
Lavei as mãos com calma, os cabelos, a pele, observando a espuma desaparecer
pelo ralo. Depois de tudo terminado, fechei os olhos e fiquei ali mais tempo do
que pretendia. Quando desliguei o chuveiro, a pele ainda guardava o calor,
avermelhada. Enxuguei-me devagar antes de voltar ao quarto.

a tia enxotando o gato no final kkkkk mto bom
ResponderExcluir