Pular para o conteúdo principal

Mentor Imperfeito (24)

Sentei-me na cama ainda com o corpo quente, sentindo o tecido limpo tocar a pele recém-lavada. Peguei o livro que Ted me dera e o apoiei sobre as pernas. A leitura não pedia pressa; pedia presença.

O quarto oferecia solitude enquanto a casa respirava em outro cômodo, distante. Em algum ponto, interrompi a leitura para virar a lâmpada do abajur um pouco mais para baixo. A página ganhou sombra. Continuei.

Peguei o maço que estava sobre a mesa de cabeceira, retirando um cigarro. A leitura prosseguiu com o objeto ali, entre os dedos, reconhecido, mas apagado. Quando me dei conta, o marcador avançara algumas páginas. Fechei o livro com cuidado, mantendo o lugar.

Ajustei o travesseiro atrás das costas. Acendi o cigarro e inspirei. A fumaça ficou baixa, contida. Voltei ao texto, agora com outra atenção.

Kathy descrevia Tommy com delicadeza. Cada gesto dele era ali preservado. Ela falava da forma como ele segurava os objetos, da risada súbita que vinha sem aviso, dos silêncios que se instalavam entre eles com naturalidade.

A cinza do cigarro já pendia, sem lugar onde cair. Levantei-me e peguei um copo usado para servir de cinzeiro.

Kathy fazia questão de registrar sorrisos, momentos e conversas aparentemente banais.

Levei o cigarro aos lábios, o travo amargo foi seguido por um alívio lento que preencheu todo o peito. Meus olhos percorriam as linhas seguintes.

Kathy narrava suas memórias sabendo que estava perdendo as pessoas ao redor, uma por uma. Guardava cada gesto, cada conversa, cada momento compartilhado, na esperança de que o ato de lembrar as manteria, vivas por mais tempo.

Parei de ler.

O cigarro permaneceu entre meus dedos, a brasa consumindo o papel. Olhei para a capa. O título permanecia ali, impresso em letras simples.

Apaguei a bituca no cinzeiro improvisado sobre a mesa de cabeceira.

Continuei lendo até que a página começou a ficar turva. Pisquei, e a umidade se espalhou. Não interrompi a leitura. Deixei que as lágrimas caíssem enquanto acompanhava Kathy em sua jornada de despedidas amargas e afetos preservados.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. puts, o cinzeiro de copo kkkk quem nunca?

    ResponderExcluir
  2. Texto bonito. Tudo o que eu precisava hoje.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...