Sentei-me
na cama ainda com o corpo quente, sentindo o tecido limpo tocar a pele
recém-lavada. Peguei o livro que Ted me dera e o apoiei sobre as pernas. A
leitura não pedia pressa; pedia presença.
O
quarto oferecia solitude enquanto a casa respirava em outro cômodo, distante.
Em algum ponto, interrompi a leitura para virar a lâmpada do abajur um pouco
mais para baixo. A página ganhou sombra. Continuei.
Peguei
o maço que estava sobre a mesa de cabeceira, retirando um cigarro. A leitura
prosseguiu com o objeto ali, entre os dedos, reconhecido, mas apagado. Quando
me dei conta, o marcador avançara algumas páginas. Fechei o livro com cuidado,
mantendo o lugar.
Ajustei
o travesseiro atrás das costas. Acendi o cigarro e inspirei. A fumaça ficou
baixa, contida. Voltei ao texto, agora com outra atenção.
Kathy
descrevia Tommy com delicadeza. Cada gesto dele era ali preservado. Ela falava
da forma como ele segurava os objetos, da risada súbita que vinha sem aviso,
dos silêncios que se instalavam entre eles com naturalidade.
A
cinza do cigarro já pendia, sem lugar onde cair. Levantei-me e peguei um copo
usado para servir de cinzeiro.
Kathy
fazia questão de registrar sorrisos, momentos e conversas aparentemente banais.
Levei
o cigarro aos lábios, o travo amargo foi seguido por um alívio lento que
preencheu todo o peito. Meus olhos percorriam as linhas seguintes.
Kathy
narrava suas memórias sabendo que estava perdendo as pessoas ao redor, uma por
uma. Guardava cada gesto, cada conversa, cada momento compartilhado, na
esperança de que o ato de lembrar as manteria, vivas por mais tempo.
Parei
de ler.
O
cigarro permaneceu entre meus dedos, a brasa consumindo o papel. Olhei para a
capa. O título permanecia ali, impresso em letras simples.
Apaguei
a bituca no cinzeiro improvisado sobre a mesa de cabeceira.
Continuei lendo até que a página começou a ficar turva. Pisquei, e a umidade se espalhou. Não interrompi a leitura. Deixei que as lágrimas caíssem enquanto acompanhava Kathy em sua jornada de despedidas amargas e afetos preservados.


puts, o cinzeiro de copo kkkk quem nunca?
ResponderExcluirTexto bonito. Tudo o que eu precisava hoje.
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