Acordei de bruços. O travesseiro
estava úmido. Demorei alguns segundos para reconhecer o quarto. A primeira
coisa que me chamou a atenção foi uma cadeira encostada na parede, num ângulo
ligeiramente torto, distante demais para ser útil. Fiquei olhando para aquilo
por algum tempo.
Rolei de lado. A lembrança voltou
inteira: ela viu tudo. Permaneci na cama, imóvel, tentando perceber algum som
no apartamento. Água correndo. Uma porta de armário. Algo pousado sobre uma
superfície dura. O corredor permanecia silencioso.
Ela me vira; agora sabia que eu
não passava de um ser sem transição digna, sem qualquer compostura. Um fardo
para ombros cansados.
Um cheiro seco de amêndoa torrada
com petricor atravessou o corredor. Canela, havia um toque de canela. O dejejum
estava posto.
Imaginei o momento em que teria
de sair do quarto. O café sendo servido, o som dos copos na mesa. Tentei prever
o olhar dela. Virei o rosto para a parede; o quarto tinha poucos objetos.
Perguntei-me se ela tinha
conversado com meu pai. Cresceram na mesma casa. Tinham o mesmo sangue. Meu
sangue. Estendi a mão até a mesa de cabeceira e peguei o celular. Não havia
mensagem nova. Lembrei-me dela na porta da sala, observando tudo.
Continuei deitada, as mãos
abertas sobre o lençol, esperando que alguma coisa no mundo mudasse.
Os ruídos da cozinha continuaram.
Contei os intervalos entre um som e outro. A torneira aberta por poucos
segundos. O arrastar breve de uma cadeira. Depois, o silêncio. Minutos depois,
veio o som da maçaneta na sala.
Levantei a cabeça do travesseiro.
Nenhum movimento no apartamento. Sentei na cama. A luz da manhã atravessava a
cortina e desenhava uma faixa no chão. Passei a mão no rosto e fiquei ali mais
um instante.
A cozinha vazia. A mesa posta: o
café na garrafa térmica, o queijo minas ao lado da manteiga e um pote de vidro
com geleia. A janela estava aberta. O ar da manhã entrava limpo, trazendo o
cheiro das árvores. Puxei a cadeira e me sentei.
Olhei para a mesa. O pão cortado.
A xícara solitária, o prato alinhado. Tomei um gole de café. Apoiei as mãos na
mesa e fiquei olhando para a superfície lisa da madeira.
Lavei a xícara, o prato e a faca.
Deixei-os escorrendo e passei um pano pela mesa.
Voltei ao quarto, encostei a
porta, peguei minha bolsa e a revirei sobre a cama. O RG, o CPF e alguns
currículos amassados caíram. Peguei os currículos e passei os dedos pelas
folhas para alisá-las, uma por uma, pressionando-as com a palma contra a superfície
dura da cômoda. Não funcionou.
Tirei o computador da mochila,
coloquei-o na cômoda. Organizei os cabos rente à parede, evitando qualquer
incômodo.
Era só o que eu tinha.
Pendurei minhas roupas amassadas
no armário. Organizei as roupas íntimas na gaveta.
Sentei na beira da cama.
O sol entrava pela janela
iluminando as partículas de poeira suspensas no ar. O quarto estava quieto. O
apartamento inteiro estava quieto.
Fiquei sentada um tempo, com as
mãos no colo, olhando para as caixas ainda encostadas na parede. No chão, o
maço de Marlboro caído; o fumo desfeito em um rastro de poeira escura sobre o
piso. Ajoelhei-me imediatamente. Tateando o taco, esfreguei a palma até retirar
o cheiro do tabaco. Levantei-me, encostei a mala atrás da porta e fui para a
sala.
Afastei as cadeiras, limpei o pó
da estante, alinhei dois livros fora do lugar. O disco que eu tinha ouvido na
noite anterior ainda estava no toca-discos. Tirei com cuidado, guardei na capa
e devolvi à prateleira. Varri, passei pano, limpei o apartamento inteiro.
O sol estava avançado quando
terminei. Fiquei parada no meio do cômodo, segurando o cabo da vassoura, sem
saber exatamente o que fazer em seguida.
Naquela
noite, sentei na cama e encarei as caixas. Meu computador e minhas roupas.
Apenas duas coisas: tudo o que eu havia juntado na vida até então. Deitei com a
roupa do corpo, atenta aos ruídos da casa. Minha tia lavava a louça do jantar. Ouvi o barulho da torneira, o metal sendo
areado e o estalo seco da água parando quando ela fechou o registro. Ela passou
pelo meu quarto, despediu-se com um boa noite e os seus passos sumiram em
direção à sala.
Não
nos conhecíamos. Ela não me exigiu nada.

💔
ResponderExcluirOi Joyce!! Após anos fumando Marlboro light comecei a fumar o vermelho por sua causa, me sinto mt mais interessante com o filtro vermelho entre os dedos
ResponderExcluirOla anônimo, aposto que você fica um gatinho 🐅 assim. Repare que o cheiro é melhor e a boca fica muito mais gostosa!
ExcluirComigo aconteceu o mesmo, fumava Dhunhil, achava o Marlboro forte, aí devido ao blog comprei um dia, comecei a alternar, ai foi cada vez mais ficando o Marlboro, agora se não for Marlboro red, parece que não satisfaz!!!
ResponderExcluirEle é bem mais gostoso, vale muito mais a pena
ExcluirCom certeza, não me arrependo, valeu a pena, é bom demais
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