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Degredo (11 - Final)

Acordei de bruços. O travesseiro estava úmido. Demorei alguns segundos para reconhecer o quarto. A primeira coisa que me chamou a atenção foi uma cadeira encostada na parede, num ângulo ligeiramente torto, distante demais para ser útil. Fiquei olhando para aquilo por algum tempo.

Rolei de lado. A lembrança voltou inteira: ela viu tudo. Permaneci na cama, imóvel, tentando perceber algum som no apartamento. Água correndo. Uma porta de armário. Algo pousado sobre uma superfície dura. O corredor permanecia silencioso.

Ela me vira; agora sabia que eu não passava de um ser sem transição digna, sem qualquer compostura. Um fardo para ombros cansados.

Um cheiro seco de amêndoa torrada com petricor atravessou o corredor. Canela, havia um toque de canela. O dejejum estava posto.

Imaginei o momento em que teria de sair do quarto. O café sendo servido, o som dos copos na mesa. Tentei prever o olhar dela. Virei o rosto para a parede; o quarto tinha poucos objetos.

Perguntei-me se ela tinha conversado com meu pai. Cresceram na mesma casa. Tinham o mesmo sangue. Meu sangue. Estendi a mão até a mesa de cabeceira e peguei o celular. Não havia mensagem nova. Lembrei-me dela na porta da sala, observando tudo.

Continuei deitada, as mãos abertas sobre o lençol, esperando que alguma coisa no mundo mudasse.

Os ruídos da cozinha continuaram. Contei os intervalos entre um som e outro. A torneira aberta por poucos segundos. O arrastar breve de uma cadeira. Depois, o silêncio. Minutos depois, veio o som da maçaneta na sala.

Levantei a cabeça do travesseiro. Nenhum movimento no apartamento. Sentei na cama. A luz da manhã atravessava a cortina e desenhava uma faixa no chão. Passei a mão no rosto e fiquei ali mais um instante.

A cozinha vazia. A mesa posta: o café na garrafa térmica, o queijo minas ao lado da manteiga e um pote de vidro com geleia. A janela estava aberta. O ar da manhã entrava limpo, trazendo o cheiro das árvores. Puxei a cadeira e me sentei.

Olhei para a mesa. O pão cortado. A xícara solitária, o prato alinhado. Tomei um gole de café. Apoiei as mãos na mesa e fiquei olhando para a superfície lisa da madeira.

Lavei a xícara, o prato e a faca. Deixei-os escorrendo e passei um pano pela mesa.

Voltei ao quarto, encostei a porta, peguei minha bolsa e a revirei sobre a cama. O RG, o CPF e alguns currículos amassados caíram. Peguei os currículos e passei os dedos pelas folhas para alisá-las, uma por uma, pressionando-as com a palma contra a superfície dura da cômoda. Não funcionou.

Tirei o computador da mochila, coloquei-o na cômoda. Organizei os cabos rente à parede, evitando qualquer incômodo.

Era só o que eu tinha.

Pendurei minhas roupas amassadas no armário. Organizei as roupas íntimas na gaveta.

Sentei na beira da cama.

O sol entrava pela janela iluminando as partículas de poeira suspensas no ar. O quarto estava quieto. O apartamento inteiro estava quieto.

Fiquei sentada um tempo, com as mãos no colo, olhando para as caixas ainda encostadas na parede. No chão, o maço de Marlboro caído; o fumo desfeito em um rastro de poeira escura sobre o piso. Ajoelhei-me imediatamente. Tateando o taco, esfreguei a palma até retirar o cheiro do tabaco. Levantei-me, encostei a mala atrás da porta e fui para a sala.

Afastei as cadeiras, limpei o pó da estante, alinhei dois livros fora do lugar. O disco que eu tinha ouvido na noite anterior ainda estava no toca-discos. Tirei com cuidado, guardei na capa e devolvi à prateleira. Varri, passei pano, limpei o apartamento inteiro.

O sol estava avançado quando terminei. Fiquei parada no meio do cômodo, segurando o cabo da vassoura, sem saber exatamente o que fazer em seguida.

Naquela noite, sentei na cama e encarei as caixas. Meu computador e minhas roupas. Apenas duas coisas: tudo o que eu havia juntado na vida até então. Deitei com a roupa do corpo, atenta aos ruídos da casa. Minha tia lavava a louça do jantar.  Ouvi o barulho da torneira, o metal sendo areado e o estalo seco da água parando quando ela fechou o registro. Ela passou pelo meu quarto, despediu-se com um boa noite e os seus passos sumiram em direção à sala.

Não nos conhecíamos. Ela não me exigiu nada.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Oi Joyce!! Após anos fumando Marlboro light comecei a fumar o vermelho por sua causa, me sinto mt mais interessante com o filtro vermelho entre os dedos

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    1. Ola anônimo, aposto que você fica um gatinho 🐅 assim. Repare que o cheiro é melhor e a boca fica muito mais gostosa!

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  2. Comigo aconteceu o mesmo, fumava Dhunhil, achava o Marlboro forte, aí devido ao blog comprei um dia, comecei a alternar, ai foi cada vez mais ficando o Marlboro, agora se não for Marlboro red, parece que não satisfaz!!!

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    Respostas
    1. Ele é bem mais gostoso, vale muito mais a pena

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    2. Com certeza, não me arrependo, valeu a pena, é bom demais

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