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Matinta-Perera (4)

Explicou que a canção era de Tunai, um compositor mineiro que tinha estudado na Escola de Minas em Ouro Preto. Disse que ali também havia passado o irmão mais velho dele, João Bosco. Contou que durante a faculdade costumava viajar para Ouro Preto. Ficava em repúblicas cheias de estudantes. Violões circulavam pela casa. Cerveja barata. Conversas até tarde. Uma vez tinha entrado na república Sinagoga, onde João Bosco havia morado. Nunca soube se Tunai também tinha vivido ali.

Ele falava de um jeito que supunha algum conhecimento da minha parte. Disse que Tunai e o irmão tocavam violão de um modo que escapava da disciplina da formação clássica. Havia ali uma recusa em ser elegante da maneira esperada.

Enquanto ele falava, tirei o maço do bolso da jaqueta. Escolhi um cigarro e o coloquei entre os lábios. Quando acendi, Ted interrompeu a frase por um instante. A chama iluminou meu rosto. Puxei a primeira tragada e senti o tabaco descer.

Ele retomou a história, mas o olhar voltava sempre para os meus dedos. Apoiei o braço no encosto do banco e deixei a fumaça sair pela boca. A brasa avançava lentamente.

Ted falava sobre Ouro Preto, sobre as noites nas repúblicas, sobre os violões que passavam de mão em mão. Entre uma frase e outra, eu tragava. Nesses momentos ele diminuía o ritmo, acompanhando cada movimento com atenção.

Percebi como a maneira lenta com que eu fumava, somado à música de fundo, o afetava. Inclinei um pouco a cabeça e dei outra tragada. A fumaça saiu devagar. Ele parou de falar por um instante.

Fingi não notar. Mantive o cigarro entre os dedos e deixei o braço repousar sobre o joelho. A ponta do cigarro diminuindo. O rapaz na esquina cantando.

Ted sorriu, voltando sua atenção para a efervescência da bebida. Disse que todo mundo conhecia João Bosco e quase ninguém sabia do irmão. Havia nisso, segundo ele, uma injustiça pequena, mas real. Continuou falando enquanto eu levava o cigarro à boca.

Traguei fundo de novo, retendo a fumaça por alguns segundos. Com o cigarro firme entre os dedos, me inclinei em sua direção, estendi a mão vagarosamente e peguei o seu copo. Levei aos lábios, tomei um gole; o amargor da cerveja se fundiu ao gosto acre da minha boca. Me curvei mais um pouco. Devolvi o copo à sua mão, deixando os dedos demorarem no toque, guiando a palma dele de volta ao lugar.

Só então soltei a fumaça pelo nariz, em jatos quentes e precisos que roçaram seu rosto, o calor úmido entrando em suas narinas, grudando na pele, forçando-o a inalar meu ar.

— Tunai eu não conheço — disse em voz baixa, enquanto voltava a minha posição.

Logo em seguida, porém, menti, acrescentando que conhecia João Bosco, embora não fosse capaz de citar sequer uma única música dele.

Ted inspirou por um instante, me olhando fixamente nos lábios. Mudou a posição das pernas no banco, empurrando o corpo um pouco para trás, ajustando-se com cuidado antes de voltar a falar.

Disse então que a versão mais conhecida de Certas Canções era a de Milton Nascimento. Acrescentou que a música tinha sido feita pelos dois. A melodia era de Tunai, a letra de Milton.

Levou o copo aos lábios, mas seus olhos não desgrudavam dos meus enquanto eu apagava a bituca na madeira do banco. Depois se inclinou de volta para mim, o joelho roçando o meu de leve.

Disse que aquilo talvez soasse quase uma heresia, mas que preferia ouvir a música na voz do próprio Tunai.

A praça estava quase vazia. Um casal distante caminhava pelo caminho de pedra.

Ted continuava falando. Eu escutava. Apenas escutava. Não prestava atenção na rua atrás de nós. Não pensava em caminhos de saída. Em certo momento notei a segurança inédita que sentia. Fiquei parada por alguns instantes, reconhecendo essa mudança.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Gente, que calor! 🔥 Joyce, você está se revelando uma mulher poderosíssima. Esse gesto de tomar a cerveja dele e soltar a fumaça... meu Deus, o Ted deve ter esquecido até quem era o Tunai naquela hora kkkk. É lindo ver você se apropriando do seu corpo e do seu querer desse jeito.

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  2. "Forçando-o a inalar meu ar". Joyce, que frase! ✨ Você não está apenas namorando, você está exercendo sua existência. O Ted ficou hipnotizado, deu pra sentir o nó na garganta dele daqui. Essa segurança inédita que você sentiu é o melhor tipo de liberdade que existe.

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  3. o Ted tentando manter a pose de intelectual falando de João Bosco e você acabando com o sistema dele com um cigarro e um olhar kkkk. Mandou bem demais.

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  4. A mentira sobre conhecer o João Bosco foi o toque final perfeito. 🖤 Às vezes a gente mente só pra manter o ritmo da conversa, pra não quebrar o encanto.

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  5. Joyceeee, que ousada! 😍 Eu estaria tremendo toda, mas vc foi lá e marcou território. O "Te amo" de ontem virou essa química toda hoje. O Ted tá perdidinho por vc

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