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Matinta-Perera (5)

Naqueles dias, tudo parecia revolto, mas aquela noite havia sido normal. Um detalhe que a memória insiste em preservar. Um passeio pelas ruas do centro, um banco de praça e o bar na esquina. Voltamos depois da meia-noite. No portão, demoramos a nos despedir, parados um diante do outro. Quando finalmente entrei, o apartamento estava às escuras. Fechei a porta com cuidado e esperei um tempo, deixando os olhos se acostumarem.

Fui até a cozinha e acendi a luz; a claridade da lâmpada logo vazou pela janela acima da pia. Abri o armário e peguei um copo. Precisava de um gole de água fria. Lavei-o e o coloquei no escorredor, ao lado da xícara que minha tia usara à noite. O silêncio da casa era completo, a não ser pelo zumbido da geladeira.

No caminho para o quarto, parei diante da estante da sala. Os vinis estavam ali, as capas coloridas no escuro. Passei o dedo nas lombadas, senti o papel liso, as bordas. Alguns eram antigos, outros mais novos. Procurei por Tunai ou João Bosco. Ela tinha muitos e eu não conhecia aqueles discos, não sabia quais eram. Desisti, baixei a mão, continuei meu caminho.

Fechei a porta atrás de mim, deixando que o quarto permanecesse na sombra. Sentei na borda da cama e inclinei o corpo para desamarrar as botas. No escuro, a vista percorria o que a pouca luz revelava: a sombra da grade na parede, e o guarda-roupa entreaberto. As pernas doíam de tanto andar, mas eu não queria dormir ainda. Queria ficar mais um pouco naquela noite.

Virei de lado, apertei o travesseiro. Pensei no disco que não encontrei na estante. Pensei no dia em que teria meus próprios discos. Minha própria estante. Desejei um emprego, dinheiro. O direito de poder fazer barulho e deixar as luzes acesas. Poder dormir com a roupa do corpo sem me preocupar se iria sujar o lençol. Poder acordar de madrugada e fazer café, andar pelada pela casa, deixar Ted entrar na hora que quisesse.

O zumbido da geladeira parou, depois voltou. Me levantei; afinal, eu ainda precisava tomar banho.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

[Deu vontade de compartilhar esse vídeo com vocês! Tô ouvindo agora para aproveitar a noite.] - Joyce


Comentários

  1. "O direito de poder fazer barulho". Que frase forte, Joyce. A gente passa tanto tempo tentando ser invisível pra não incomodar, que esquece que viver faz som.

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  2. Quando fumar passou a ser uma necessidade?

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    Respostas
    1. Não sei dizer ao certo. Acredito que já era eu só não tinha me dado conta.

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