Naqueles dias, tudo parecia
revolto, mas aquela noite havia sido normal. Um detalhe que a memória insiste
em preservar. Um passeio pelas ruas do centro, um banco de praça e o bar na
esquina. Voltamos depois da meia-noite. No portão, demoramos a nos despedir,
parados um diante do outro. Quando finalmente entrei, o apartamento estava às
escuras. Fechei a porta com cuidado e esperei um tempo, deixando os olhos se
acostumarem.
Fui até a cozinha e acendi a luz;
a claridade da lâmpada logo vazou pela janela acima da pia. Abri o armário e
peguei um copo. Precisava de um gole de água fria. Lavei-o e o coloquei no
escorredor, ao lado da xícara que minha tia usara à noite. O silêncio da casa
era completo, a não ser pelo zumbido da geladeira.
No caminho para o quarto, parei
diante da estante da sala. Os vinis estavam ali, as capas coloridas no escuro.
Passei o dedo nas lombadas, senti o papel liso, as bordas. Alguns eram antigos,
outros mais novos. Procurei por Tunai ou João Bosco. Ela tinha muitos e eu não
conhecia aqueles discos, não sabia quais eram. Desisti, baixei a mão, continuei
meu caminho.
Fechei a porta atrás de mim,
deixando que o quarto permanecesse na sombra. Sentei na borda da cama e
inclinei o corpo para desamarrar as botas. No escuro, a vista percorria o que a
pouca luz revelava: a sombra da grade na parede, e o guarda-roupa entreaberto.
As pernas doíam de tanto andar, mas eu não queria dormir ainda. Queria ficar
mais um pouco naquela noite.
Virei de lado, apertei o
travesseiro. Pensei no disco que não encontrei na estante. Pensei no dia em que
teria meus próprios discos. Minha própria estante. Desejei um emprego,
dinheiro. O direito de poder fazer barulho e deixar as luzes acesas. Poder dormir
com a roupa do corpo sem me preocupar se iria sujar o lençol. Poder acordar de
madrugada e fazer café, andar pelada pela casa, deixar Ted entrar na hora que
quisesse.
O zumbido da geladeira parou,
depois voltou. Me levantei; afinal, eu ainda precisava tomar banho.
[Deu vontade de compartilhar esse vídeo com vocês! Tô ouvindo agora para aproveitar a noite.] - Joyce

"O direito de poder fazer barulho". Que frase forte, Joyce. A gente passa tanto tempo tentando ser invisível pra não incomodar, que esquece que viver faz som.
ResponderExcluir❤️
ExcluirQuando fumar passou a ser uma necessidade?
ResponderExcluirNão sei dizer ao certo. Acredito que já era eu só não tinha me dado conta.
Excluir