Abri a porta silenciosamente e
atravessei o corredor até o banheiro.
Liguei a luz. O vapor do chuveiro
quente começou a encher o lugar enquanto eu tirava a roupa. A jaqueta, a blusa,
o sutiã. A pele respirou. A calça escorregou pelos quadris e caiu no chão.
Fiquei nua diante da pia. Passei a mão pelo pescoço, pelo peito, pelo ventre
morno da caminhada. Minhas pernas ainda guardavam a marca das botas nos
tornozelos.
O vapor já começava a turvar as
bordas do vidro. Passei a mão pela superfície fria do espelho, abrindo um
círculo limpo no centro. Meu cabelo estava escuro, solto; caía pelos ombros.
Deixei o olhar descer pelas coxas, pelos quadris, pela curva do tronco. Me
reconhecia e ao mesmo tempo me via.
Um rubor subia pelo pescoço,
tingindo a pele de rosa. Senti uma pulsação insistente entre as pernas, os
tecidos inchando, úmidos e sensíveis. O corpo inteiro formigava. A boca secou,
ansiando pelo amargor de tabaco. Precisava de um cigarro. Peguei o maço no
bolso da jaqueta. A fumaça encheu a boca e saiu pelo nariz, espalhando-se
diante do meu rosto.
A cabeça voltou ao portão, à
despedida demorada. À forma que ele me olhou antes de ir embora. Havia algo
obsceno em me olhar assim.
Dei outra tragada.
Ele gostava de me ver fumar. E
dava pra entender o porquê.
O filtro pardo se colava aos meus
lábios entreabertos, que inalavam com fome. Minhas pupilas dilatadas me
devoravam de volta. Os seios tremiam levemente.
As cinzas caíam esquecidas na
pia. Senti um pequeno espasmo pélvico, as pernas levemente fraquejando. Um
gemido rouco escapou com a expiração. A ponta chamuscou na última tragada. O
cigarro acabou bem depressa.
O batom havia resistido, mas os
olhos não. Umedeci um lenço, limpei, passei o pincel devagar de dentro para
fora, até a mancha virar intenção. Peguei outro cigarro.
Levantei o celular diante do
espelho. O reflexo devolvia o colo e o cigarro entre os dedos. A primeira foto
ficou ruim, eu tinha erguido o braço alto demais. A segunda ficou pior porque
eu estava rindo da primeira. Na terceira, parei de tentar. Apenas apertei o
botão.
Observei a tela. Uma mulher
segurando um cigarro de maneira engessada, vulgar. Faltava algo. Baixei o
telefone e encarei o chão.
O sutiã de renda preta estava
entre a jaqueta e a blusa. Peguei e vesti devagar. O pequeno laço no centro
repousava no vale do peito. Ajustei as alças sem pressa. Levantei o olhar outra
vez. O cabelo escuro caía em ondas desalinhadas sobre os ombros. Havia um
cansaço suave no rosto. Levei o cigarro à boca. As unhas pintadas de um terra
sóbrio seguravam o celular com firmeza. Apertei o botão.
Na tela exatamente aquilo que eu
tinha sentido. Fiquei me olhando. Minha “primeira” foto fumando. Enviei para
Ted.
Entrei no box. A água escorreu
pelo meu rosto, pelas costas, pelos seios. Passei sabonete devagar. Pensava na
noite, na foto, na reação dele.
Fiquei parada um instante,
sentindo a pressão do jato no alto da cabeça, a água escorrendo pelo pescoço.

Acendi um red aqui lendo isso! Faltou coragem pra foto
ResponderExcluirO filtro pardo se colava aos meus lábios entreabertos, que inalavam com fome. Os meus também neste exato minuto!
ResponderExcluirEsse texto foi de arrepiar
ResponderExcluir"A mancha virou intenção". Que frase maravilhosa, Joyce! Enviar essa foto foi o seu ato de maior liberdade até agora. Você é dona de si.
ResponderExcluiro Ted vai precisar de um desfibrilador depois dessa foto kkkkk.
ResponderExcluir