Fomos tomar um café. Assim que me
sentei, tirei a jaqueta, deixando a pele nua dos ombros à mostra. Um convite ao
olhar. Com a ponta dos dedos, deslizei a barra da calça para cima, revelando um
pouco mais da bota. Meus cabelos soltos emolduravam o rosto. Usava uma calça jeans
preta justa de cintura alta, a bota de camurça sintética com salto fino e
cadarço cruzado, uma blusa de crepe azul e a jaqueta curta, que agora repousava
sobre o encosto.
Sofia começou a falar sobre um
senhor bem velhinho que se sentara ao lado dela no parque. Ele havia
compartilhado a memória da esposa, já falecida. O tom de Sofia me prendeu. Meus
olhos se fixaram em sua boca enquanto ela falava, e em suas mãos que, de vez em
quando, tocavam os cabelos.
Instintivamente, inclinei-me para
a frente, apoiando os cotovelos na mesa. Minhas mãos abandonaram o nervosismo
de amassar o guardanapo e repousaram abertas sobre o tampo. Sofia fez uma breve
pausa, girando a colher no café por três vezes enquanto mantinha o olhar fixo
para baixo.
Ela contou que o senhor saía de
casa pela manhã e caminhava até o mesmo banco no parque. A esposa costumava
alimentar os pombos ali; o ritual dela tornara-se o dele. Minha respiração
tornou-se mais lenta. Toquei a pele nua do meu ombro. Ele carregava no bolso um
saco de pão. Dentro, migalhas da mesma receita que ela fazia.
Ela fez uma pausa, e eu percebi
que estava segurando a respiração. Ela contou que, ao perguntar se a visita
diária ao parque era dolorosa, ele riu. Um riso cheio de rugas. Disse que não
vinha por tristeza, mas porque sentia que ela ainda estava presente. Que a
saudade não é um peso, é uma ponte.
[Eu e Sofia, os mesmos calçados.] - Joyce
Só queria dizer que sua narrativa me faz lembrar pq eu gosto de ler. Não é exagero. Essa parte do velhinho me desmontou “saudade é uma ponte" fiquei parada uns minutos.
ResponderExcluirJoyce, vc tem alguma noção da sensibilidade que coloca nessas cenas? Parece q vc vive num mundo com mais camadas do que a gente. Obrigada por dividir isso aqui.
ResponderExcluirJoyce, eu notei exatamente o que você fez aí com as botas 😉
ResponderExcluirA gente não é boba: você e Sofia usando o mesmo modelo (camurça, cadarço, salto fino) não foi coincidência. A bota é o código que diz: Eu tenho o seu estilo, eu tenho a sua ousadia.
Mas a jogada de mestre foi quando você se sentou e puxou a calça para mostrar mais a bota! Aquilo não foi descuido, foi uma declaração na cara dela! Você queria que ela soubesse que a sua nova persona está ali, firme e forte, no mesmo salto que a dela.
Puro flerte, pura marcação de território.
Beijos e continua escrevendo! ✨
Obrigada.Vocês me dão forças pra continuar escrevendo!
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