No ônibus da volta, os assentos
se encontravam, impregnados do cansaço alheio. As janelas riscadas mostravam
apenas vultos rápidos demais para serem reconhecidos.
O celular vibrou. Ted queria
saber por que eu tinha ido trabalhar com a camiseta dele. Não estava irritado;
pelo contrário, parecia se divertir com a ideia, mas deixava claro que preferia
ter mantido tudo entre nós. Fiquei olhando as palavras na tela. A camiseta
ainda colada na pele, uma prova de que a noite não terminara. Não havia culpa,
tampouco orgulho; apenas uma vontade de prolongar a sensação de ser observada
por um sistema maior que nós dois.
Quando entrei em casa, ignorei a
solidão da sala e fui direto para a cozinha. As chaves do carro da minha mãe
estavam sobre a mesa, misturadas à correspondência. Peguei-as sem fazer barulho
e fugi. Dirigi sem rumo, sem mapa, sem qualquer expectativa de saída. O
trânsito rareava conforme eu avançava entre muros pichados e vitrines vazias.
Parei num bar sem nome, com mesas
grudentas e cadeiras que rangiam. Pedi uma cerveja e como não tinham Marlboro,
optei pelo Lucky Strike vermelho. Sentei-me na calçada. A primeira tragada
trouxe um prazer imediato, inegociável.
Senti cada botão do meu cérebro
sendo acionado simultaneamente: uma tempestade de hormônios e
neurotransmissores percorrendo meu corpo. A epinefrina e o cortisol acelerando
meu coração, preparando-me para a ação; a dopamina trazendo uma onda de
felicidade e relaxamento; as beta-endorfinas aliviando a dor e dissipando o
estresse. E a nicotina, que me mantinha alerta e calma ao mesmo tempo.
Era o coquetel definitivo.
Aguçava os sentidos, coloria o prazer e, no fim das contas, entregava-me a uma
rendição pesada e completa. Era químico, era visceral, era bom. Simplesmente me
sentia ótima.
O cigarro queimava devagar entre
os meus dedos, enquanto o barulho indistinto de conversas se misturava ao som
distante de uma jukebox desafinada e ao ranger do ônibus freando na esquina.
Ninguém me olhava; ninguém esperava nada de mim. A cada tragada, uma alegria
secreta: o chão sujo da calçada, o riso rouco vindo lá de dentro, a lâmpada
oscilando como um inseto morrendo. Tudo me recebia sem cerimônia. Eu era apenas
mais um corpo anônimo na noite sem nome.

Nossa, Joyce, você descreveu exatamente aquela sensação de 'fuga' que a gente. O detalhe da camiseta do Ted e depois o Lucky Strike vermelho. É impressionante como momentos tão sujos e comuns podem ser os mais libertadores. Amei o texto!
ResponderExcluirA parte em que você descreve a reação química do cigarro no corpo é fantastica. Tem algo de muito magnético na imagem de uma pessoa sozinha, no controle da sua própria noite, curtindo cada tragada sem dar satisfação a ninguém. O Lucky Strike foi o toque final perfeito.
ResponderExcluirEsse sentimento de ser um corpo anônimo na noite é forte. Você transmite uma vulnerabilidade e uma força muito grandes ao mesmo tempo.
ResponderExcluirO coquetel definitivo, dopamina e nicotina. Você descreveu a química do prazer de um jeito que pouca gente tem coragem de admitir. Aquela alegria secreta que só quem já se sentiu observado entende. Texto impecável!
ResponderExcluirJoyce, fiquei presa na cena da camiseta do Ted! Fiquei imaginando a cara dele descobrindo que você levou para o trabalho. E essa fuga com o carro da mãe? Que audácia deliciosa.
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