O cheiro do café ainda pairava sobre os móveis limpos. O silêncio tinha uma espessura própria, preenchendo os espaços mais do que qualquer conversa.
Meu pai passou pelo corredor com os passos regulares de sempre, mas hesitou à porta. Não bateu. Nunca batia. Apenas entrou com os olhos. Fitou-me com aquela expressão contida de quem procura por algo fora do lugar. Disse que eu andava me arrumando demais, e que me olhava tanto no espelho porque queria chamar atenção.
O comentário caiu fundo. Não que fosse novo; o tom já me era familiar, mas havia algo de mais cortante naquela manhã.
Deixei o tônico facial escorregar dos dedos. O impacto seco contra a penteadeira pareceu mais alto do que deveria. O espelho diante de mim devolveu apenas pedaços: olhos que, segundo ele, “pediam o que não deviam”. Eu era, em suas palavras, uma verdadeira menina de esquina.
Respirei fundo, mas o ar veio raso. As paredes pareciam ter se aproximado. O quarto, cúmplice mudo de tantas descobertas solitárias, parecia agora menor, estreito, como se também me julgasse.
Virei o rosto na direção da sala. Minha mãe continuava sentada, o olhar fixo na tela do celular. Nenhuma reação. Nenhuma palavra. Apenas o som da colher mexendo o café, como um sussurro metronômico que dizia: não me envolvo.
Mais que a acusação, foi aquele silêncio que me feriu. A ausência de defesa. A recusa em me enxergar. Era ali que a traição morava. Na recusa do gesto. Do não agir. Do não olhar. Do não se levantar por mim.

esse texto me deixou arrepiada. o silêncio da mãe doeu mais do q qualquer palavra. parece cena de filme
ResponderExcluirnossa q pesado… a parte do “menina de esquina” me revoltou real. o jeito q vc escreve faz a gente sentir o constrangimento junto.
ResponderExcluirsério, q talento! esse final com o “não agir. do não olhar.” ficou muito forte. me lembrou Clarice um pouco, mas com algo mais cru, mais ferido.
ResponderExcluira pior violência é o silêncio. sua mãe ali no texto me lembrou a minha… essa coisa de fingir q não vê pra não precisar escolher um lado. 😞
ResponderExcluirme deu um aperto. vc tem uma sensibilidade absurda, pq consegue mostrar a dor sem precisar explicar. parabéns, de vdd.
ResponderExcluirtive q ler duas vezes. a segunda doeu mais.
ResponderExcluirvc tem um dom pra escrever essas situações familiares q doem e a gente finge q não doem. amei o detalhe da colher mexendo o café.
ResponderExcluirq raiva desse pai, mas mais ainda da mãe. o silêncio dela é o q mais corta. texto lindo e triste demais.
ResponderExcluirJoyce, respira fundo! Eu sinto tanta raiva lendo isso... "Menina de esquina"? Esse tipo de comentário é HORRÍVEL e te diminui, mas não te define. O julgamento dele é só o reflexo da infelicidade e da opressão que ele tenta te passar. O silêncio da sua mãe é ainda mais doloroso, porque é a traição no "não agir". Por favor, não deixe isso apagar o fogo que você acendeu! Você está livre, e a casa deles é só um lugar temporário. Força! ❤️
ResponderExcluirmano q soco… o texto começa calmo e termina num vazio q a gente conhece, msm sem ter vivido isso. muito bom.
ResponderExcluirme lembrou mt um texto da jarid arraes, mas com uma pegada mais interna, tipo a dor q não se fala. incrível 😢
ResponderExcluirNão conheço, vou procurar conhecer, muito obrigada pela dica.
Excluirachei tão visual, parece q dava pra ver a poeira no ar. e esse pai, aff... esse tipo de machismo disfarçado de “preocupação” é o q mais machuca.
ResponderExcluirEu sei EXATAMENTE o que é esse "ar raso" e o quarto que te "julga". É a sensação de que não há um lugar seguro. A frase "A recusa em me enxergar" é a chave da história, Joyce. É por isso que você precisava do cigarro e do Ted, para que alguém te visse de verdade. Esse é o grande contraste: a liberdade que você achou fora de casa versus a prisão emocional aí dentro. Manda esse pai para a PQP! O importante é a pessoa que você vê no espelho agora.
ResponderExcluir“era ali que a traição morava” 👏👏👏 q frase. simples e devastadora.
ResponderExcluirfiquei em silêncio uns minutos dps de ler. parece q vc colocou palavras num tipo de dor q eu nunca consegui explicar. obrigada.
ResponderExcluiresse tipo de escrita me deixa sem chão, pq é mto humano. vc devia publicar isso num livro logo.
ResponderExcluirEssa passagem é um soco no estômago, Joyce. O pior é que eles nem precisam saber o que aconteceu para te culpar. Eles leem a sua felicidade no seu rosto e julgam. Seu pai não procura pelo lugar fora do lugar, ele procura pela você fora do lugar que ele te designou. Não deixe isso te derrubar. Pelo contrário: use essa raiva como combustível. A melhor vingança é ser absurdamente feliz e provar que você não é o que eles pensam. Força!
ResponderExcluirMuito obrigada por todos os comentários! É emocionante revisitar e compartilhar essa parte da minha vida e receber tanto incentivo de vocês. Vejo que essa postagem mecheu com todo mundo. obrigada
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