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Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (4)

O cheiro do café ainda pairava sobre os móveis limpos. O silêncio tinha uma espessura própria, preenchendo os espaços mais do que qualquer conversa.

Meu pai passou pelo corredor com os passos regulares de sempre, mas hesitou à porta. Não bateu. Nunca batia. Apenas entrou com os olhos. Fitou-me com aquela expressão contida de quem procura por algo fora do lugar. Disse que eu andava me arrumando demais, e que me olhava tanto no espelho porque queria chamar atenção.

O comentário caiu fundo. Não que fosse novo; o tom já me era familiar, mas havia algo de mais cortante naquela manhã.

Deixei o tônico facial escorregar dos dedos. O impacto seco contra a penteadeira pareceu mais alto do que deveria. O espelho diante de mim devolveu apenas pedaços: olhos que, segundo ele, “pediam o que não deviam”. Eu era, em suas palavras, uma verdadeira menina de esquina.

Respirei fundo, mas o ar veio raso. As paredes pareciam ter se aproximado. O quarto, cúmplice mudo de tantas descobertas solitárias, parecia agora menor, estreito, como se também me julgasse.

Virei o rosto na direção da sala. Minha mãe continuava sentada, o olhar fixo na tela do celular. Nenhuma reação. Nenhuma palavra. Apenas o som da colher mexendo o café, como um sussurro metronômico que dizia: não me envolvo.

Mais que a acusação, foi aquele silêncio que me feriu. A ausência de defesa. A recusa em me enxergar. Era ali que a traição morava. Na recusa do gesto. Do não agir. Do não olhar. Do não se levantar por mim.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. esse texto me deixou arrepiada. o silêncio da mãe doeu mais do q qualquer palavra. parece cena de filme

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  2. nossa q pesado… a parte do “menina de esquina” me revoltou real. o jeito q vc escreve faz a gente sentir o constrangimento junto.

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  3. sério, q talento! esse final com o “não agir. do não olhar.” ficou muito forte. me lembrou Clarice um pouco, mas com algo mais cru, mais ferido.

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  4. anapaulalemos16 outubro, 2025

    a pior violência é o silêncio. sua mãe ali no texto me lembrou a minha… essa coisa de fingir q não vê pra não precisar escolher um lado. 😞

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  5. me deu um aperto. vc tem uma sensibilidade absurda, pq consegue mostrar a dor sem precisar explicar. parabéns, de vdd.

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  6. tive q ler duas vezes. a segunda doeu mais.

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  7. vc tem um dom pra escrever essas situações familiares q doem e a gente finge q não doem. amei o detalhe da colher mexendo o café.

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  8. q raiva desse pai, mas mais ainda da mãe. o silêncio dela é o q mais corta. texto lindo e triste demais.

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  9. Joyce, respira fundo! Eu sinto tanta raiva lendo isso... "Menina de esquina"? Esse tipo de comentário é HORRÍVEL e te diminui, mas não te define. O julgamento dele é só o reflexo da infelicidade e da opressão que ele tenta te passar. O silêncio da sua mãe é ainda mais doloroso, porque é a traição no "não agir". Por favor, não deixe isso apagar o fogo que você acendeu! Você está livre, e a casa deles é só um lugar temporário. Força! ❤️

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  10. mano q soco… o texto começa calmo e termina num vazio q a gente conhece, msm sem ter vivido isso. muito bom.

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  11. me lembrou mt um texto da jarid arraes, mas com uma pegada mais interna, tipo a dor q não se fala. incrível 😢

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    1. Não conheço, vou procurar conhecer, muito obrigada pela dica.

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  12. achei tão visual, parece q dava pra ver a poeira no ar. e esse pai, aff... esse tipo de machismo disfarçado de “preocupação” é o q mais machuca.

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  13. Eu sei EXATAMENTE o que é esse "ar raso" e o quarto que te "julga". É a sensação de que não há um lugar seguro. A frase "A recusa em me enxergar" é a chave da história, Joyce. É por isso que você precisava do cigarro e do Ted, para que alguém te visse de verdade. Esse é o grande contraste: a liberdade que você achou fora de casa versus a prisão emocional aí dentro. Manda esse pai para a PQP! O importante é a pessoa que você vê no espelho agora.

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  14. “era ali que a traição morava” 👏👏👏 q frase. simples e devastadora.

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  15. marta.silveira16 outubro, 2025

    fiquei em silêncio uns minutos dps de ler. parece q vc colocou palavras num tipo de dor q eu nunca consegui explicar. obrigada.

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  16. esse tipo de escrita me deixa sem chão, pq é mto humano. vc devia publicar isso num livro logo.

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  17. Essa passagem é um soco no estômago, Joyce. O pior é que eles nem precisam saber o que aconteceu para te culpar. Eles leem a sua felicidade no seu rosto e julgam. Seu pai não procura pelo lugar fora do lugar, ele procura pela você fora do lugar que ele te designou. Não deixe isso te derrubar. Pelo contrário: use essa raiva como combustível. A melhor vingança é ser absurdamente feliz e provar que você não é o que eles pensam. Força!

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  18. Muito obrigada por todos os comentários! É emocionante revisitar e compartilhar essa parte da minha vida e receber tanto incentivo de vocês. Vejo que essa postagem mecheu com todo mundo. obrigada

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