As frias manhãs
voltaram com sua exatidão habitual, mas eu as recebia diferente. No trabalho,
eu já não sabia disfarçar o desconforto. Aquele lugar exigia tanto e devolvia
tão pouco. Esforçava-me, lia, tentava acompanhar. Mas sempre havia um detalhe
esquecido, um nome trocado, uma espera longa demais depois que eu falava, algo
em mim parecia estar, irremediavelmente, fora do compasso.
Havia falhado
em algo simples. De novo. Bastou um olhar atravessado para que eu me sentisse parte
do mobiliário. Invisível, inadequada, fora de lugar. A rotina ali não era
apenas cansativa: era um castigo disfarçado de maturidade.
Tentei manter o
sorriso, mas minhas palavras se embaralhavam, escorregavam pela língua sem
formar nada sólido. Tudo o que fazia sentido na minha cabeça se desfazia no ar.
Eu me sentia
uma criança brincando de ser adulta.
Estudei demais
para aquilo. E, mesmo assim, me sentia estrangeira no próprio ofício. A teoria
nunca me preparou para o constrangimento de não saber agir, de não ser
reconhecida, de não ser sequer notada. Quando alguém me olhava, era com a
dúvida nos olhos, ou, pior, com aquela polida tolerância que se reserva aos que
parecem não durar muito.
Ao meu redor,
colegas pareciam executar suas tarefas com naturalidade coreografada.
Conversavam, resolviam questões com agilidade, improvisavam com leveza. Eu só
queria saber onde ficava a chave do armário de material. Isso, naquele momento,
era o suficiente para me desmoronar por dentro.
Peguei meu copo descartável e fui até o fundo. Sentei em um banco improvisado com o corpo encurvado, na tentativa de me esconder dentro de mim mesma. O café servido pela instituição tinha gosto de ausência. Fraco, morno, filtrado demais ou de menos, talvez alguém tivesse desistido no meio do preparo.

Joyce, do céu! Você pegou a frase da minha vida: "A rotina ali não era apenas cansativa: era um castigo disfarçado de maturidade." Eu me sinto uma impostora todos os dias no meu emprego. A gente estuda horrores, faz tudo certo na teoria, e chega na prática é só essa ansiedade de não saber agir, de não saber nem onde ficam as coisas mais básicas! A parte da "polida tolerância" dos colegas me doeu. Parece que eles sabem que você não é dali. Força, de verdade. Seu texto faz a gente se sentir menos sozinha nessa bagunça de ser "adulta". ❤️
ResponderExcluirOi Karina, você também é fumante?
Excluira descrição do café com gosto de ausência tão poética se até você que escreve de forma tão articulada sente isso talvez eu não seja um caso perdido. Continua escrevendo, por favor!
ResponderExcluirJoice, demorou para começar a gostar de fumar, ou foi só depois da primeira tragada, que mudou a chave? E o vício, quando percebeu que não podia ficar mais sem?
ResponderExcluirGostei desde o principio, mas foi com o tempo que realmente entendi. Foi diferente. Não sei especificar quando percebi que não podia ficar sem. Tem situações que passo dias sem fumar.
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