Pular para o conteúdo principal

Coisa de Pele (34)

Sofia se levantou da mesa num ímpeto abrupto, os olhos brilhando com uma determinação súbita que eu não soube decifrar. Virou o restante da cerveja em um único gole, estendeu a mão e me conduziu para fora do bar.

Nossos passos ressoavam sobre o calçamento úmido, enquanto a neblina subia das águas quentes da praça e embaçava as luzes ao redor. Ela parecia saber exatamente para onde ia.

O som nos alcançou antes da próxima esquina. Acordes de violão e uma voz rouca cantando Simon & Garfunkel. Então o vimos: um bar pequeno, de esquina, com as portas abertas derramando luz sobre a calçada. Um grupo se aglomerava na entrada, copos nas mãos, conversas entrecortadas pela música ao vivo que fluía para fora. 

Sofia hesitou por um segundo, os olhos vasculhando a multidão. Respirou fundo e me puxou para dentro do cardume que se espalhava pela rua.

O ambiente era outro. Mais cru, mais honesto. A luz do neon rosa tingia os rostos, e a fumaça dos cigarros criava camadas translúcidas que dançavam no ar. Sofia me arrastou até um canto mais escuro, quase oculto atrás de um pilar.

Ficamos em silêncio. Ela fumava com uma lentidão calculada, e eu observava a fumaça subir em espirais tênues. Nossos olhos se encontraram através da névoa, e senti que ela estava estudando meu rosto.

Quando me estendeu o cigarro, nossos dedos se tocaram brevemente. O contato foi rápido, mas preciso. Me senti exposta sob o olhar dela.

Ela começou a contar sobre um ex-namorado, um músico que dividia o tempo entre a banda e a moto. Dizia que ele a deixava esperando por horas nos ensaios, nunca dava atenção de verdade e jamais a assumia em público. Ele a relegava ao status de passatempo, uma distração entre seus "compromissos sérios".

Mesmo assim, ela sempre voltava. Esperava, se arrumava, se vestia para ele tentando provar que valia alguma coisa: uma rotina dolorosa de autoafirmação. Até o dia em que foi encontrá-lo depois de um ensaio e o viu saindo com outra. Ele parou a moto ao vê-la e apenas perguntou o que ela estava fazendo ali.

A frase criou uma cicatriz interna. Daquelas que doem nos momentos de silêncio.

Depois disso, jurou que nunca mais ia implorar. Mas mentiu para si mesma. Continuou implorando. 

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Meu Deus, que momento, Joy! 😩
    A Sofia te tirando da mesa no "ímpeto abrupto" e te levando pra um bar mais cru... Ela tava te expondo ao lado mais real dela. Não é à toa que a fumaça e o neon rosa tavam lá.
    Mas a história do músico... Eu chorei! 😭😭 A gente sempre volta, né? A gente se arruma, se veste, tentando provar que "valia alguma coisa" pra um cara que te trata como passatempo. Essa rotina dolorosa de autoafirmação é a minha vida!
    Eu me senti na pele da Sofia! E a frase dele, "o que ela estava fazendo ali?", é a frase que acaba com a gente. Você e ela estão muito conectadas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É uma dor que, infelizmente, conhecemos bem. Estamos juntas nisso.

      Excluir
  2. Joyce, que escrita! Eu senti a neblina subindo das águas quentes da praça! Vc é incrível em criar a atmosfera.
    A cena do bar novo, mais escuro, com a fumaça... é a metáfora perfeita pra onde a Sofia te levou: pro lado dela que é mais obscuro e cheio de cicatrizes. E o cigarro que ela te estende, o toque rápido e preciso... É uma cumplicidade silenciosa.
    Mas a parte do ex-namorado é um soco no estômago! A gente jura que não vai implorar, mas sempre mente pra si mesma e volta a tentar provar que é digna. "Relegava ao status de passatempo"... O mundo é cruel.
    Fiquei tensa! O que a Joyce vai fazer com essa confissão?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A atmosfera nos levou para onde era necessário. E o que farei? Apenas escutar e ficar.

      Excluir
  3. Aff, Joyce, que profundidade! 💔

    A Sofia é linda por fora, mas por dentro carrega um monte de feridas abertas por homem idiota. A determinação súbita dela é pra não chorar, eu acho. Ela te leva pra fumaça pra não ter que falar olhando pra luz.

    O fato de ela ter te contado que "continuou implorando" mesmo depois de jurar que não ia mais... Isso é muito humano! A gente sabe o certo, mas a carência e a tentativa de ser vista fazem a gente cair na mesma armadilha.

    Você e ela são duas almas gêmeas de dor. Estou amando a honestidade desse blog! Bjos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você entendeu o coração da Sofia. É a nossa humanidade que nos conecta. Bjos!

      Excluir
  4. Essa história é de arrepiar. O músico, a moto, a falta de atenção. A rotina dolorosa de autoafirmação. Meu Deus, que frase! Quantas vezes eu fiz isso? Me arrumei, esperei, tentando provar que eu merecia o mínimo de respeito.
    E o toque dos dedos de vocês na hora do cigarro. A cumplicidade ali é de quem está prestes a quebrar. Ela tá te mostrando o lado ferido dela.
    "Me senti exposta sob o olhar dela." Vc tá nuinha por dentro, Joy. O que vai acontecer agora que a máscara da Sofia caiu de vez? Ansiosa demais!

    ResponderExcluir
  5. Eu só queria abraçar a Sofia! 😔
    O jeito que ela te puxa no impulso, vira a cerveja, não fala nada... Ela tava fugindo de si mesma. E o bar, com a fumaça e a luz rosa, é o esconderijo perfeito.
    Essa história do músico que a tratava como "distração entre seus compromissos sérios" me lembrou muito a fase dos meus 20 anos. A gente aceita migalhas por medo de ficar sozinha. E a pior parte é quando a gente mente para si mesma e continua implorando.
    Que bom que você ficou. É isso que ela precisa. Que alguém fique quando ela tá crua e honesta. Maravilhoso texto!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Precisamos de refúgios. Que bom que você gostou.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...