Sofia se levantou da mesa num ímpeto abrupto, os olhos brilhando com uma determinação súbita que eu não soube decifrar. Virou o restante da cerveja em um único gole, estendeu a mão e me conduziu para fora do bar.
Nossos passos ressoavam sobre o calçamento úmido, enquanto a neblina subia das águas quentes da praça e embaçava as luzes ao redor. Ela parecia saber exatamente para onde ia.
O som nos alcançou antes da próxima esquina. Acordes de violão e uma voz rouca cantando Simon & Garfunkel. Então o vimos: um bar pequeno, de esquina, com as portas abertas derramando luz sobre a calçada. Um grupo se aglomerava na entrada, copos nas mãos, conversas entrecortadas pela música ao vivo que fluía para fora.
Sofia hesitou por um segundo, os olhos vasculhando a multidão. Respirou fundo e me puxou para dentro do cardume que se espalhava pela rua.
O ambiente era outro. Mais cru, mais honesto. A luz do neon rosa tingia os rostos, e a fumaça dos cigarros criava camadas translúcidas que dançavam no ar. Sofia me arrastou até um canto mais escuro, quase oculto atrás de um pilar.
Ficamos em silêncio. Ela fumava com uma lentidão calculada, e eu observava a fumaça subir em espirais tênues. Nossos olhos se encontraram através da névoa, e senti que ela estava estudando meu rosto.
Quando me estendeu o cigarro, nossos dedos se tocaram brevemente. O contato foi rápido, mas preciso. Me senti exposta sob o olhar dela.
Ela começou a contar sobre um ex-namorado, um músico que dividia o tempo entre a banda e a moto. Dizia que ele a deixava esperando por horas nos ensaios, nunca dava atenção de verdade e jamais a assumia em público. Ele a relegava ao status de passatempo, uma distração entre seus "compromissos sérios".
Mesmo assim, ela sempre voltava. Esperava,
se arrumava, se vestia para ele tentando provar que valia alguma coisa: uma
rotina dolorosa de autoafirmação. Até o dia em que foi encontrá-lo depois de um
ensaio e o viu saindo com outra. Ele parou a moto ao vê-la e apenas perguntou o
que ela estava fazendo ali.
A frase criou uma cicatriz interna. Daquelas que doem nos momentos de silêncio.
Depois disso, jurou que nunca mais ia implorar. Mas mentiu para si mesma. Continuou implorando.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Meu Deus, que momento, Joy! 😩
ResponderExcluirA Sofia te tirando da mesa no "ímpeto abrupto" e te levando pra um bar mais cru... Ela tava te expondo ao lado mais real dela. Não é à toa que a fumaça e o neon rosa tavam lá.
Mas a história do músico... Eu chorei! 😭😭 A gente sempre volta, né? A gente se arruma, se veste, tentando provar que "valia alguma coisa" pra um cara que te trata como passatempo. Essa rotina dolorosa de autoafirmação é a minha vida!
Eu me senti na pele da Sofia! E a frase dele, "o que ela estava fazendo ali?", é a frase que acaba com a gente. Você e ela estão muito conectadas.
É uma dor que, infelizmente, conhecemos bem. Estamos juntas nisso.
ExcluirJoyce, que escrita! Eu senti a neblina subindo das águas quentes da praça! Vc é incrível em criar a atmosfera.
ResponderExcluirA cena do bar novo, mais escuro, com a fumaça... é a metáfora perfeita pra onde a Sofia te levou: pro lado dela que é mais obscuro e cheio de cicatrizes. E o cigarro que ela te estende, o toque rápido e preciso... É uma cumplicidade silenciosa.
Mas a parte do ex-namorado é um soco no estômago! A gente jura que não vai implorar, mas sempre mente pra si mesma e volta a tentar provar que é digna. "Relegava ao status de passatempo"... O mundo é cruel.
Fiquei tensa! O que a Joyce vai fazer com essa confissão?
A atmosfera nos levou para onde era necessário. E o que farei? Apenas escutar e ficar.
ExcluirAff, Joyce, que profundidade! 💔
ResponderExcluirA Sofia é linda por fora, mas por dentro carrega um monte de feridas abertas por homem idiota. A determinação súbita dela é pra não chorar, eu acho. Ela te leva pra fumaça pra não ter que falar olhando pra luz.
O fato de ela ter te contado que "continuou implorando" mesmo depois de jurar que não ia mais... Isso é muito humano! A gente sabe o certo, mas a carência e a tentativa de ser vista fazem a gente cair na mesma armadilha.
Você e ela são duas almas gêmeas de dor. Estou amando a honestidade desse blog! Bjos!
Você entendeu o coração da Sofia. É a nossa humanidade que nos conecta. Bjos!
ExcluirEssa história é de arrepiar. O músico, a moto, a falta de atenção. A rotina dolorosa de autoafirmação. Meu Deus, que frase! Quantas vezes eu fiz isso? Me arrumei, esperei, tentando provar que eu merecia o mínimo de respeito.
ResponderExcluirE o toque dos dedos de vocês na hora do cigarro. A cumplicidade ali é de quem está prestes a quebrar. Ela tá te mostrando o lado ferido dela.
"Me senti exposta sob o olhar dela." Vc tá nuinha por dentro, Joy. O que vai acontecer agora que a máscara da Sofia caiu de vez? Ansiosa demais!
O que resta é a verdade
ExcluirEu só queria abraçar a Sofia! 😔
ResponderExcluirO jeito que ela te puxa no impulso, vira a cerveja, não fala nada... Ela tava fugindo de si mesma. E o bar, com a fumaça e a luz rosa, é o esconderijo perfeito.
Essa história do músico que a tratava como "distração entre seus compromissos sérios" me lembrou muito a fase dos meus 20 anos. A gente aceita migalhas por medo de ficar sozinha. E a pior parte é quando a gente mente para si mesma e continua implorando.
Que bom que você ficou. É isso que ela precisa. Que alguém fique quando ela tá crua e honesta. Maravilhoso texto!
Precisamos de refúgios. Que bom que você gostou.
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