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Coisa de Pele (35)

Tudo mudou quando apareceu o Ted.

Sofia contou que, numa madrugada, estavam voltando de um bar. Garoava. Ela usava um sapato que escorregava na calçada molhada e ria de si mesma, um riso meio envergonhado. Disse que sempre a mandaram ser mais contida, mais delicada, menos escandalosa. Que o riso dela incomodava porque era grande demais, fora de lugar.

Mas naquela noite, Ted simplesmente deu um passo à frente. Não disse nada. Só abriu um guarda-chuva que ninguém sabia que carregava. Um gesto simples, quase imperceptível, mas que mudava tudo: se posicionou de modo que a chuva caísse sobre ele, não sobre ela. E ficou ali, uma proteção silenciosa entre ela e o desconforto.

Quando se virou para ver se Sofia o acompanhava, sorriu. Não riu dela. Riu com ela. E isso fez toda a diferença. Sofia disse que naquele momento soube. Que aquele gesto simples era, na verdade, um sussurro dizendo: você pode ser quem é. E ser cuidada mesmo assim.

Fiquei ouvindo em silêncio, tentando encontrar uma forma de respirar fundo sem parecer que algo se partia dentro de mim.

Não consegui.

Ela continuou falando, e eu apenas ficava ali. Ficar era tudo o que conseguia fazer.

Então ela se inclinou para frente, os olhos brilhando com uma vulnerabilidade desesperada, e me pediu ajuda para mostrar a ele que os dois deviam ficar juntos.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, que texto lindo e ao mesmo tempo devastador. Meu coração ficou apertadíssimo por você. Como é agonizante ouvir elogios à pessoa que se ama, sabendo que são dirigidos justamente àquela que pode te ferir. Você está segurando uma bomba com as próprias mãos. Força!

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    1. É uma agonia silenciosa. Sintia a bomba na mão, sim.

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  2. nossa joyce. a genialidade desse texto ta justamnt na ironia tragica. a sofia descreve o homem perfeito, o gesto q toda mulher sonha, e nois leitores sentimos a faca se enterrando a cada palavra q ela diz.
    essa linha "tentando encontrar uma forma de respirar fundo sem parecer q algo se partia dentro de mim" ME PEGOU DEMAIS É ISSO. vc conseguiu traduzir a dor silenciosa aquele despedaçar-se por dentro sem q ninguem perceba. vc é corajosa DEMAIS p conseguir colocar isso em palavras.

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    1. A ironia é o tempero da vida. Obrigada por me ler e sentir essa dor.

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  3. Não consigo parar de pensar nesse contraste: a Sofia, radiante e vulnerável, contando o momento mais mágico da vida dela, que é, na verdade, o seu maior pesadelo. A sua reação de simplesmente "ficar" foi a única possível. O que mais fazer? É um daqueles momentos em que a vida é mais cruel do que qualquer ficção. E a sua amiga pedindo AJUDA para ficar com ele. Joyce, sinto muito. Sério. Sua escrita é magnífica, mas que história dolorosa de se viver.

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  4. duas coisas me impressioram MUITO primeiro a sua habildiade de observar e capturar a beleza num gesto simples (o guarda chuva o riso) segundo a sua força herculea de não ter interrompido a sofia no meio do relato.
    a vulnerabilidade desesperada dela é oq torna a situação mais cruel pra vc. ela não é uma vilã é só uma pessoa apaixonada e isso deve doer MUITO MAIS espero q vc tenha algm pra desabafar pq carregar isso sozinha é um fardo muito pesado. cuida de vc

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  5. Fiquei ouvindo em silêncio. essa parte ME QUEBROU. é a representação pura da resignação. vc não é só uma ótima contadora de histórias joyce vc é uma GUERREIRA. a sofia viu um gesto de cuidado no ted mas quem ta precisando de cuidado agora é vc de verdade.
    torcendo pra q vc tenha encontrado uma saida p esse labirinto e q acima de tudo continue escrevendo, pq seu dom é inEgaVel. Manda noticias, tamo c vc! ❤️🥺

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