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Coisa de Pele (38)

Lembrei da primeira vez que ele falou desse hotel. Foi no meu primeiro dia, quando eu mal o conhecia. Disse que preferia dormir perto do trabalho quando ficava até tarde. Que economizava tempo, descansava melhor.

Para ele, era apenas a solução de um problema prático, mas o efeito em mim foi outro. A ideia de passar a noite com ele, fora do controle dos meus pais e da rotina, era assustadora e excitante ao mesmo tempo.

Normalmente, ficávamos em quartos separados, com um corredor entre nós. Naquela noite, não. Seriam apenas duas bolsas e um quarto.

Subimos as escadas. A luz branca tornava tudo pálido. Quando a porta se abriu, ele entrou primeiro. O quarto era simples: duas camas, um armário, uma janela voltada para o estacionamento.

Sentei-me à beira da cama e tirei os sapatos devagar, sentindo o piso frio sob os pés. O som da água no banheiro me fez estremecer. Ele já pertencia àquele espaço, enquanto eu ainda procurava onde deixar minhas mãos, minha ansiedade, minha roupa.

Agora, com os olhos fixos na mala fechada aos meus pés, os cabelos presos de qualquer jeito e a roupa íntima que escolhi por impulso, eu me perguntava se ele percebia. Se via que eu tremia. Se notava que cada detalhe daquela noite era novo para mim.

Imaginava se ele dormiria de lado, com os ombros curvados. Pensava no zíper do nécessaire, que fechei mais devagar do que o normal. Na toalha pendurada atrás da porta. No calor que me subia pelas coxas, discreto e constante.

Era a primeira vez que eu me permitia desejar sem culpa. Não sentia medo, apenas antecipação. Eu não sabia o que fazer. Mas queria descobrir.

O barulho da água cessou. E então, apenas o som das gotas no azulejo. A porta do banheiro permaneceu fechada por um instante longo demais. Eu não sabia se deveria me levantar, ajeitar a cama, fingir naturalidade. Fiquei ali, sentada, com as mãos entrelaçadas no colo, ouvindo meu próprio coração.

Quando ele saiu, vinha com o rosto úmido, a barba mais macia, os cabelos levemente bagunçados. Trazia a toalha pendurada no ombro e uma camisa escura. Passou por mim em silêncio e fechou a janela. A cortina leve parou de balançar com o vento frio da noite.

Ted se sentou na outra cama. Não me olhou de imediato. Passou as mãos nos joelhos, nos próprios braços. Eu queria dizer algo. Qualquer coisa. Mas apenas me levantei e fui até o banheiro com passos lentos.

A luz amarela acendeu com um estalo seco, revelando o azulejo antigo, o espelho embaçado, o cheiro morno de sabão. 

Fechei a porta atrás de mim.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, que texto delicado e ao mesmo tempo intenso! A forma como você descreve a ansiedade, o "calor que sobe pelas coxas", os sons do banheiro. Me transportou completamente para aquele quarto de hotel. É incrível como você consegue traduzir sentimentos tão complexos em palavras.

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    1. Karina: Agradeço muito o carinho! Fico feliz que a intensidade daquele momento tenha chegado até você.

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  2. Nossa, Joyce. Isso me fez voltar à minha primeira vez, aquele nervosismo misturado com excitação, a sensação de que cada pequeno gesto é um mundo. A parte do "onde deixar minhas mãos, minha ansiedade, minha roupa" é tão real. O Ted, com sua postura contida, é a personificação daquele parceiro que a gente fica tentando decifrar. Adorei!

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    1. Que bom que você se identificou, Anna. É bom saber que não estou sozinha nessas sensações!

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  3. A parte da roupa íntima escolhida por impulso foi de matar! É exatamente isso. São aqueles pequenos segredos que carregamos conosco, cheios de esperança e medo. Você capturou perfeitamente a vulnerabilidade e a coragem de se permitir desejar. Textão!

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  4. A genialidade desse texto está no que NÃO é dito. A tensão toda é construída nos silêncios, no barulho da água, na porta que não abre, no Ted fechando a janela. É uma aula de como criar clima. Me deixou na ponta da cadeira, querendo saber o que aconteceu depois que a luz do banheiro acendeu.

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    1. Que ótimo que a tensão funcionou, Marcos! A espera faz parte da história, né?

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  5. Joyce, sua narrativa em fluxo de consciência é impecável. A forma como você mescla sensações físicas (o piso frio, o estalo da luz) com o turbilhão emocional é de uma maestria rara. Esse contraste entre a palidez do ambiente e o fogo interior da personagem é pura poesia. Parabéns.

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  6. "Era a primeira vez que eu me permitia desejar sem culpa." Essa frase bateu forte em mim. Sua escrita não é só sobre um momento íntimo, é sobre libertação. Sobre se encontrar no meio do medo e da antecipação. Obrigada por compartilhar algo tão pessoal e poderoso.

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  7. Confesso que fiquei com o coração apertado lendo. A angústia da espera, a tentativa de ler cada gesto do Ted. É tão real que chega a doer. Sua escrita é visceral, Joyce. Me identifiquei muito. É universal.

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    1. É uma angústia real, Bia. Obrigada por me dizer que se identificou.

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  8. O símbolo da janela sendo fechada me pegou demais. Num gesto simples, ele transformou aquele quarto num universo só deles, isolado do mundo. É impressionante como você consegue carregar os objetos e ações cotidianas com tanta emoção e significado. Mais uma vez, arrasou!

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  9. Obrigada pelos comentários

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