Lembrei da primeira vez que ele
falou desse hotel. Foi no meu primeiro dia, quando eu mal o conhecia. Disse que
preferia dormir perto do trabalho quando ficava até tarde. Que economizava
tempo, descansava melhor.
Para ele, era apenas a solução de
um problema prático, mas o efeito em mim foi outro. A ideia de passar a noite
com ele, fora do controle dos meus pais e da rotina, era assustadora e
excitante ao mesmo tempo.
Normalmente, ficávamos em quartos
separados, com um corredor entre nós. Naquela noite, não. Seriam apenas duas
bolsas e um quarto.
Subimos as escadas. A luz branca
tornava tudo pálido. Quando a porta se abriu, ele entrou primeiro. O quarto era
simples: duas camas, um armário, uma janela voltada para o estacionamento.
Sentei-me à beira da cama e tirei
os sapatos devagar, sentindo o piso frio sob os pés. O som da água no banheiro
me fez estremecer. Ele já pertencia àquele espaço, enquanto eu ainda procurava
onde deixar minhas mãos, minha ansiedade, minha roupa.
Agora, com os olhos fixos na mala
fechada aos meus pés, os cabelos presos de qualquer jeito e a roupa íntima que
escolhi por impulso, eu me perguntava se ele percebia. Se via que eu tremia. Se
notava que cada detalhe daquela noite era novo para mim.
Imaginava se ele dormiria de
lado, com os ombros curvados. Pensava no zíper do nécessaire, que fechei mais
devagar do que o normal. Na toalha pendurada atrás da porta. No calor que me
subia pelas coxas, discreto e constante.
Era a primeira vez que eu me
permitia desejar sem culpa. Não sentia medo, apenas antecipação. Eu não sabia o
que fazer. Mas queria descobrir.
O barulho da água cessou. E
então, apenas o som das gotas no azulejo. A porta do banheiro permaneceu
fechada por um instante longo demais. Eu não sabia se deveria me levantar,
ajeitar a cama, fingir naturalidade. Fiquei ali, sentada, com as mãos
entrelaçadas no colo, ouvindo meu próprio coração.
Quando ele saiu, vinha com o
rosto úmido, a barba mais macia, os cabelos levemente bagunçados. Trazia a
toalha pendurada no ombro e uma camisa escura. Passou por mim em silêncio e
fechou a janela. A cortina leve parou de balançar com o vento frio da noite.
Ted se sentou na outra cama. Não
me olhou de imediato. Passou as mãos nos joelhos, nos próprios braços. Eu
queria dizer algo. Qualquer coisa. Mas apenas me levantei e fui até o banheiro
com passos lentos.
A luz amarela acendeu com um estalo seco, revelando o azulejo antigo, o espelho embaçado, o cheiro morno de sabão.
Fechei a porta atrás de mim.

Joyce, que texto delicado e ao mesmo tempo intenso! A forma como você descreve a ansiedade, o "calor que sobe pelas coxas", os sons do banheiro. Me transportou completamente para aquele quarto de hotel. É incrível como você consegue traduzir sentimentos tão complexos em palavras.
ResponderExcluirKarina: Agradeço muito o carinho! Fico feliz que a intensidade daquele momento tenha chegado até você.
ExcluirNossa, Joyce. Isso me fez voltar à minha primeira vez, aquele nervosismo misturado com excitação, a sensação de que cada pequeno gesto é um mundo. A parte do "onde deixar minhas mãos, minha ansiedade, minha roupa" é tão real. O Ted, com sua postura contida, é a personificação daquele parceiro que a gente fica tentando decifrar. Adorei!
ResponderExcluirQue bom que você se identificou, Anna. É bom saber que não estou sozinha nessas sensações!
ExcluirA parte da roupa íntima escolhida por impulso foi de matar! É exatamente isso. São aqueles pequenos segredos que carregamos conosco, cheios de esperança e medo. Você capturou perfeitamente a vulnerabilidade e a coragem de se permitir desejar. Textão!
ResponderExcluirA genialidade desse texto está no que NÃO é dito. A tensão toda é construída nos silêncios, no barulho da água, na porta que não abre, no Ted fechando a janela. É uma aula de como criar clima. Me deixou na ponta da cadeira, querendo saber o que aconteceu depois que a luz do banheiro acendeu.
ResponderExcluirQue ótimo que a tensão funcionou, Marcos! A espera faz parte da história, né?
ExcluirJoyce, sua narrativa em fluxo de consciência é impecável. A forma como você mescla sensações físicas (o piso frio, o estalo da luz) com o turbilhão emocional é de uma maestria rara. Esse contraste entre a palidez do ambiente e o fogo interior da personagem é pura poesia. Parabéns.
ResponderExcluir"Era a primeira vez que eu me permitia desejar sem culpa." Essa frase bateu forte em mim. Sua escrita não é só sobre um momento íntimo, é sobre libertação. Sobre se encontrar no meio do medo e da antecipação. Obrigada por compartilhar algo tão pessoal e poderoso.
ResponderExcluirConfesso que fiquei com o coração apertado lendo. A angústia da espera, a tentativa de ler cada gesto do Ted. É tão real que chega a doer. Sua escrita é visceral, Joyce. Me identifiquei muito. É universal.
ResponderExcluirÉ uma angústia real, Bia. Obrigada por me dizer que se identificou.
ExcluirO símbolo da janela sendo fechada me pegou demais. Num gesto simples, ele transformou aquele quarto num universo só deles, isolado do mundo. É impressionante como você consegue carregar os objetos e ações cotidianas com tanta emoção e significado. Mais uma vez, arrasou!
ResponderExcluirObrigada pelos comentários
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