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Coisa de Pele (39)

Girei o registro. A água caiu morna, constante. Tirei a blusa devagar, sentindo o tecido colar nos ombros. O sutiã se abriu com um clique abafado. O espelho refletia minha pele marcada pelo dia, pelos olhares, pelas intenções contidas. Não me escondi, não desviei os olhos.

A água escorria pelas clavículas, pelos seios, pelas costas. Eu passava as mãos com delicadeza, sem inocência. Reconhecia contornos, nomeava vontades. Fechei os olhos. A espuma descia, contornando o umbigo e a virilha. O som da água abafava o mundo. Os dedos acariciavam devagar a pele já quente, receptiva. Encostei na parede fria, arqueie levemente o corpo. Não buscava pressa.

O vapor começou a subir, úmido, silencioso, inevitável. Os olhos fechados, a boca entreaberta, a respiração alterada.

Terminei o banho com lentidão. Enxuguei o corpo em silêncio, sentindo a toalha áspera contra a pele viva. Vesti uma calcinha nova e um baby doll leve. Passei um hidratante com cheiro discreto: um toque nos pulsos, entre os seios, atrás da nuca. Escovei os dentes com mais lentidão do que o necessário. Ajeitei o cabelo, o decote, o tecido fino sobre a pele. Ensaiei sorrisos.

Quando voltei, ele já estava deitado. Apenas a luz do abajur acesa desenhava seu contorno no lençol. Minha cama ainda estava vazia. A penumbra do quarto parecia mais densa do que antes, amadurecida em minha ausência.

Caminhei até a minha bolsa e abaixei-me com cuidado, o tecido do baby doll subindo discretamente, deixando a parte mais delicada à meia-luz. Abri o zíper sem ruído, peguei o maço de Marlboro Light comprado para aquela ocasião. Sentei-me na beira da cama, retirei o lacre, peguei um cigarro com dois dedos. Acendi; a brasa iluminou meu rosto por um segundo.

Traguei devagar, com o pescoço levemente inclinado para trás. A fumaça deslizou dos meus lábios, um sussurro denso e sinuoso, curvando-se no ar antes de desaparecer. Meus olhos estavam semicerrados, o gesto era ensaiado. Cada detalhe tinha um fim, e aquele fim era ele. A fumaça dançava entre nós, exercendo seu puro domínio.

Voltei a tragar. O cigarro entre meus dedos era uma extensão do meu corpo, iluminada pelo brilho âmbar da brasa. Soprei mais uma vez, com os lábios entreabertos, deixei que a fumaça escorresse pelo canto da boca. Sem pressa, sabendo que ele ouvia.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. O momento do banho é tão íntimo e visceral. A maneira como você nomeia as vontades e reconhece os contornos do próprio corpo é um ato de coragem. Parece que você estava se dessensibilizando dos olhares do mundo e se resensibilizando para você mesma. Lindo e dolorido ao mesmo tempo.

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    1. É exatamente isso, Anna! Um momento de me reconectar comigo mesma. Obrigada por essa leitura tão atenta.

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  2. A atmosfera que você cria é incrível. Dá pra ouvir o estalo da luz, sentir a água morna e a toalha áspera. A escolha de descrever cada movimento com tanta lentidão me prendeu do início ao fim. É raro um texto conseguir ser tão cinematográfico.

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    1. Que bom que a lentidão funcionou! A intenção era mesmo criar esse clima cinematográfico. Obrigada!

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  3. Joyce, isso foi uma masterclass em tensão. A forma como você se veste, passa o hidratante, acende o cigarro.

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    1. Fico feliz que a tensão tenha prendido sua atenção!

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  4. Sai desse texto me sentindo diferente. A coragem de não desviar o olhar no espelho, de encarar a própria pele marcada… Isso é algo que toda mulher deveria ler. Fala sobre aquele momento em que a gente decide parar de fugir de nós mesmas

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    1. Que lindo seu comentário, Karina. É uma honra saber que o texto te tocou assim e que te fez refletir.

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  5. O final é perfeito. "A penumbra do quarto parecia mais densa do que antes, amadurecida em minha ausência." Essa linha é poesia pura. Você não só voltou para o quarto, você voltou transformada, e o ambiente sentiu o peso dessa mudança.

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    1. Amo essa frase também! A mudança de energia no ambiente era palpável. Obrigada!

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