Girei o registro. A água caiu
morna, constante. Tirei a blusa devagar, sentindo o tecido colar nos ombros. O
sutiã se abriu com um clique abafado. O espelho refletia minha pele marcada
pelo dia, pelos olhares, pelas intenções contidas. Não me escondi, não desviei
os olhos.
A água escorria pelas clavículas,
pelos seios, pelas costas. Eu passava as mãos com delicadeza, sem inocência.
Reconhecia contornos, nomeava vontades. Fechei os olhos. A espuma descia,
contornando o umbigo e a virilha. O som da água abafava o mundo. Os dedos
acariciavam devagar a pele já quente, receptiva. Encostei na parede fria, arqueie
levemente o corpo. Não buscava pressa.
O vapor começou a subir, úmido,
silencioso, inevitável. Os olhos fechados, a boca entreaberta, a respiração
alterada.
Terminei o banho com lentidão.
Enxuguei o corpo em silêncio, sentindo a toalha áspera contra a pele viva.
Vesti uma calcinha nova e um baby doll leve. Passei um hidratante com
cheiro discreto: um toque nos pulsos, entre os seios, atrás da nuca. Escovei os
dentes com mais lentidão do que o necessário. Ajeitei o cabelo, o decote, o
tecido fino sobre a pele. Ensaiei sorrisos.
Quando voltei, ele já estava
deitado. Apenas a luz do abajur acesa desenhava seu contorno no lençol. Minha
cama ainda estava vazia. A penumbra do quarto parecia mais densa do que antes,
amadurecida em minha ausência.
Caminhei até a minha bolsa e
abaixei-me com cuidado, o tecido do baby doll subindo discretamente,
deixando a parte mais delicada à meia-luz. Abri o zíper sem ruído, peguei o
maço de Marlboro Light comprado para aquela ocasião. Sentei-me na beira da
cama, retirei o lacre, peguei um cigarro com dois dedos. Acendi; a brasa
iluminou meu rosto por um segundo.
Traguei devagar, com o pescoço
levemente inclinado para trás. A fumaça deslizou dos meus lábios, um sussurro denso
e sinuoso, curvando-se no ar antes de desaparecer. Meus olhos estavam
semicerrados, o gesto era ensaiado. Cada detalhe tinha um fim, e aquele fim era
ele. A fumaça dançava entre nós, exercendo seu puro domínio.
Voltei a tragar. O cigarro entre
meus dedos era uma extensão do meu corpo, iluminada pelo brilho âmbar da brasa.
Soprei mais uma vez, com os lábios entreabertos, deixei que a fumaça escorresse
pelo canto da boca. Sem pressa, sabendo que ele ouvia.

O momento do banho é tão íntimo e visceral. A maneira como você nomeia as vontades e reconhece os contornos do próprio corpo é um ato de coragem. Parece que você estava se dessensibilizando dos olhares do mundo e se resensibilizando para você mesma. Lindo e dolorido ao mesmo tempo.
ResponderExcluirÉ exatamente isso, Anna! Um momento de me reconectar comigo mesma. Obrigada por essa leitura tão atenta.
ExcluirA atmosfera que você cria é incrível. Dá pra ouvir o estalo da luz, sentir a água morna e a toalha áspera. A escolha de descrever cada movimento com tanta lentidão me prendeu do início ao fim. É raro um texto conseguir ser tão cinematográfico.
ResponderExcluirQue bom que a lentidão funcionou! A intenção era mesmo criar esse clima cinematográfico. Obrigada!
ExcluirJoyce, isso foi uma masterclass em tensão. A forma como você se veste, passa o hidratante, acende o cigarro.
ResponderExcluirFico feliz que a tensão tenha prendido sua atenção!
ExcluirSai desse texto me sentindo diferente. A coragem de não desviar o olhar no espelho, de encarar a própria pele marcada… Isso é algo que toda mulher deveria ler. Fala sobre aquele momento em que a gente decide parar de fugir de nós mesmas
ResponderExcluirQue lindo seu comentário, Karina. É uma honra saber que o texto te tocou assim e que te fez refletir.
ExcluirO final é perfeito. "A penumbra do quarto parecia mais densa do que antes, amadurecida em minha ausência." Essa linha é poesia pura. Você não só voltou para o quarto, você voltou transformada, e o ambiente sentiu o peso dessa mudança.
ResponderExcluirAmo essa frase também! A mudança de energia no ambiente era palpável. Obrigada!
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