Pular para o conteúdo principal

Coisa de Pele (43)

A luz da manhã atravessava a fina cortina, invadindo o quarto com uma claridade difusa, de um tom branco-acinzentado. O despertar veio primeiro pelo tato: o calor da pele dele colada às minhas costas. Logo em seguida, a percepção de algo dolorido e viscoso entre as pernas. Mexi-me devagar, tentando não acordá-lo, enquanto buscava a confirmação de que havia sido real.

Meus dedos encontraram o elástico frouxo do short que vestira antes de adormecer e, ao deslizarem para dentro, sentiram o tecido áspero no centro. Era sangue seco. Um traço escuro e íntimo, uma assinatura involuntária selando minha primeira vez.

Sentei na beira da cama. O quarto ainda em silêncio. O short claro, estampado com desenhos ingênuos, agora trazia uma mancha que eu não teria como explicar em casa. Não queria levá-lo. Era pequeno demais para disfarces e grande demais para o esquecimento.

Pedi que Ted levasse para mim. Que desse um jeito, qualquer coisa. Mas ele franziu o rosto. Disse que não fazia sentido. Que era só um pedaço de pano, que eu estava exagerando. Não havia maldade no tom dele, só incompreensão. E impaciência.

Refugiei-me no banheiro. Tirei o short e o dobrei com cuidado, evitando encarar a mancha por muito tempo. Abandonei-o no lixo do quarto. Resgatei apenas a calcinha. Minúscula, passaria despercebida na bolsa; fácil de lavar, fácil de esconder.

Vesti a roupa habitual. Ajeitei os cabelos com os dedos e lavei o rosto com água fria. Sentei à mesa do pequeno refeitório do hotel, onde Ted já me esperava. O café em garrafas térmicas e o pão amanhecido embrulhado em guardanapos exalavam urgência. Ele tomou um gole rápido, consultou o celular e decretou a hora da partida. Se não saíssemos logo, o atraso seria certo.

Eu queria comer. Sentia fome. Mas ele se levantou antes que eu concluísse o pensamento. Avisou que iria na frente, que nos encontraríamos lá.

Fiquei mais um tempo. O café amargo deslizava pela garganta, o pão seco se desfazia devagar na boca. Só então me levantei, peguei a bolsa e apressei o passo pela calçada. O calor começava a subir do chão, os carros já ocupavam as ruas. Cheguei poucos minutos atrasada. O suficiente para que todos já estivessem em seus locais, o suficiente para sentir que o mundo tinha voltado ao seu ritmo: indiferente, eficiente, pontual, com a supervisão me apontando o relógio.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, que aperto no peito ler isso. A parte do short no lixo é de uma tristeza imensa. É como se você tivesse deixado uma parte da sua inocência naquele lixo de hotel. E o pior é a sensação de que, para o mundo, nada mudou. 💔

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É exatamente esse peso que ficou. Jogar o short fora foi um ato de desespero e um adeus. Você captou perfeitamente, o mundo não parou. Um abraço.

      Excluir
  2. É incrível como a gente romantiza a "primeira vez" na cabeça, mas a realidade muitas vezes é isso aí mesmo: pão amanhecido, pressa, medo de manchar a roupa e chegar atrasada no trabalho. Me vi muito nesse texto. A descrição do mundo voltando ao ritmo "indiferente" enquanto a gente ainda tá processando o que aconteceu é perfeita. Obrigada por escrever sobre o lado não-filme-de-hollywood da coisa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu senti a mesma coisa! Tanta construção na minha cabeça, e no fim foi a pressa e a rotina que venceram. É importante falar do lado 'não-filme-de-hollywood', sim. Obrigada pelo seu comentário, Anna!

      Excluir
  3. Gente, o desespero do short sujo!!! Quem nunca passou por esse pânico de "como vou explicar isso em casa" não sabe o que é ter pais rigorosos (ou só o medo do julgamento mesmo). Jogar no lixo foi uma atitude desesperada.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O pânico é real! Foi desespero puro. Era mais fácil sumir com a prova do que tentar explicar. Foi o que deu pra fazer na hora. Beijos!

      Excluir
  4. O texto é ótimo, mas vou fazer o advogado do diabo aqui: o Ted não estava errado. A vida adulta é essa máquina de moer sentimentalismo mesmo. Você tinha quase 30 anos, demorou pra levantar, ele tinha horário. A gente fantasia que a "primeira vez" vai parar o mundo, mas o relógio de ponto não para. É triste, mas ele só foi prático.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sei que o Ted foi prático, e você tem razão: a vida adulta não espera. É o contraste entre o meu momento interno (o rito de passagem) e a pressa dele (a rotina) que machuca. É uma tristeza real, mas é a vida.

      Excluir
  5. A primeira vez com quase 30 tem uma carga muito diferente, né? A gente já tem tantas expectativas acumuladas, tanto medo de não saber fazer, e quando acontece é só isso. Sangue, pressa e café amargo. Senti uma solidão imensa na sua descrição, Joyce. Não porque o Ted foi mau, mas porque a gente percebe que aquele momento monumental na nossa cabeça é só uma terça-feira comum pro resto do mundo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Na verdade o café da manhã foi na quinta. rsrsrsrs
      Ficavamos no hotel de quarta pra quinta.

      Excluir
  6. Que contraste incrível e doloroso: o corpo de uma mulher adulta com os medos de uma menina de 15. O short com desenhos ingênuos e a mancha de sangue adulta. O texto mostra muito bem como a gente pode ser cronologicamente adulto, mas emocionalmente ainda estar preso na casa dos pais. O Ted agiu como um colega de trabalho funcional, e você ainda estava vivendo o rito de passagem. O desencontro foi inevitável.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada por essa leitura, Luciana.

      Excluir
  7. "Era pequeno demais para disfarces e grande demais para o esquecimento." Essa frase acabou comigo. Parabéns pela coragem de expor essa fragilidade.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É uma das frases que mais me marcou ao escrever. Às vezes o que a gente mais quer esquecer é o que fica. Obrigada pela leitura atenta e pelo carinho.

      Excluir
  8. Apaixonado pela foto!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Praticamente a verdadeira. Ted virou a cara antes que eu conseguisse pegar ele. Pra um fotografo ele odiava sair em fotos.
      Claro que passei ela no Chatgpt.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...