A luz da manhã atravessava a fina
cortina, invadindo o quarto com uma claridade difusa, de um tom
branco-acinzentado. O despertar veio primeiro pelo tato: o calor da pele dele
colada às minhas costas. Logo em seguida, a percepção de algo dolorido e viscoso
entre as pernas. Mexi-me devagar, tentando não acordá-lo, enquanto buscava a confirmação
de que havia sido real.
Meus dedos encontraram o elástico
frouxo do short que vestira antes de adormecer e, ao deslizarem para dentro,
sentiram o tecido áspero no centro. Era sangue seco. Um traço escuro e íntimo,
uma assinatura involuntária selando minha primeira vez.
Sentei na beira da cama. O quarto
ainda em silêncio. O short claro, estampado com desenhos ingênuos, agora trazia
uma mancha que eu não teria como explicar em casa. Não queria levá-lo.
Era pequeno demais para disfarces e grande demais para o esquecimento.
Pedi que Ted levasse para mim.
Que desse um jeito, qualquer coisa. Mas ele franziu o rosto. Disse que não
fazia sentido. Que era só um pedaço de pano, que eu estava exagerando. Não
havia maldade no tom dele, só incompreensão. E impaciência.
Refugiei-me no banheiro. Tirei o
short e o dobrei com cuidado, evitando encarar a mancha por muito tempo.
Abandonei-o no lixo do quarto. Resgatei apenas a calcinha. Minúscula, passaria
despercebida na bolsa; fácil de lavar, fácil de esconder.
Vesti a roupa habitual. Ajeitei
os cabelos com os dedos e lavei o rosto com água fria. Sentei à mesa do pequeno
refeitório do hotel, onde Ted já me esperava. O café em garrafas térmicas e o
pão amanhecido embrulhado em guardanapos exalavam urgência. Ele tomou um gole
rápido, consultou o celular e decretou a hora da partida. Se não saíssemos
logo, o atraso seria certo.
Eu queria comer. Sentia fome. Mas
ele se levantou antes que eu concluísse o pensamento. Avisou que iria na
frente, que nos encontraríamos lá.
Fiquei mais um tempo. O café amargo deslizava pela garganta, o pão seco se desfazia devagar na boca. Só então me levantei, peguei a bolsa e apressei o passo pela calçada. O calor começava a subir do chão, os carros já ocupavam as ruas. Cheguei poucos minutos atrasada. O suficiente para que todos já estivessem em seus locais, o suficiente para sentir que o mundo tinha voltado ao seu ritmo: indiferente, eficiente, pontual, com a supervisão me apontando o relógio.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."
Bonita foto
ResponderExcluirCom essa cara de sono? rsrsrsrs
ExcluirJoyce, que aperto no peito ler isso. A parte do short no lixo é de uma tristeza imensa. É como se você tivesse deixado uma parte da sua inocência naquele lixo de hotel. E o pior é a sensação de que, para o mundo, nada mudou. 💔
ResponderExcluirÉ exatamente esse peso que ficou. Jogar o short fora foi um ato de desespero e um adeus. Você captou perfeitamente, o mundo não parou. Um abraço.
ExcluirÉ incrível como a gente romantiza a "primeira vez" na cabeça, mas a realidade muitas vezes é isso aí mesmo: pão amanhecido, pressa, medo de manchar a roupa e chegar atrasada no trabalho. Me vi muito nesse texto. A descrição do mundo voltando ao ritmo "indiferente" enquanto a gente ainda tá processando o que aconteceu é perfeita. Obrigada por escrever sobre o lado não-filme-de-hollywood da coisa.
ResponderExcluirEu senti a mesma coisa! Tanta construção na minha cabeça, e no fim foi a pressa e a rotina que venceram. É importante falar do lado 'não-filme-de-hollywood', sim. Obrigada pelo seu comentário, Anna!
ExcluirGente, o desespero do short sujo!!! Quem nunca passou por esse pânico de "como vou explicar isso em casa" não sabe o que é ter pais rigorosos (ou só o medo do julgamento mesmo). Jogar no lixo foi uma atitude desesperada.
ResponderExcluirO pânico é real! Foi desespero puro. Era mais fácil sumir com a prova do que tentar explicar. Foi o que deu pra fazer na hora. Beijos!
ExcluirO texto é ótimo, mas vou fazer o advogado do diabo aqui: o Ted não estava errado. A vida adulta é essa máquina de moer sentimentalismo mesmo. Você tinha quase 30 anos, demorou pra levantar, ele tinha horário. A gente fantasia que a "primeira vez" vai parar o mundo, mas o relógio de ponto não para. É triste, mas ele só foi prático.
ResponderExcluirSei que o Ted foi prático, e você tem razão: a vida adulta não espera. É o contraste entre o meu momento interno (o rito de passagem) e a pressa dele (a rotina) que machuca. É uma tristeza real, mas é a vida.
ExcluirA primeira vez com quase 30 tem uma carga muito diferente, né? A gente já tem tantas expectativas acumuladas, tanto medo de não saber fazer, e quando acontece é só isso. Sangue, pressa e café amargo. Senti uma solidão imensa na sua descrição, Joyce. Não porque o Ted foi mau, mas porque a gente percebe que aquele momento monumental na nossa cabeça é só uma terça-feira comum pro resto do mundo.
ResponderExcluirNa verdade o café da manhã foi na quinta. rsrsrsrs
ExcluirFicavamos no hotel de quarta pra quinta.
Que contraste incrível e doloroso: o corpo de uma mulher adulta com os medos de uma menina de 15. O short com desenhos ingênuos e a mancha de sangue adulta. O texto mostra muito bem como a gente pode ser cronologicamente adulto, mas emocionalmente ainda estar preso na casa dos pais. O Ted agiu como um colega de trabalho funcional, e você ainda estava vivendo o rito de passagem. O desencontro foi inevitável.
ResponderExcluirObrigada por essa leitura, Luciana.
Excluir"Era pequeno demais para disfarces e grande demais para o esquecimento." Essa frase acabou comigo. Parabéns pela coragem de expor essa fragilidade.
ResponderExcluirÉ uma das frases que mais me marcou ao escrever. Às vezes o que a gente mais quer esquecer é o que fica. Obrigada pela leitura atenta e pelo carinho.
ExcluirApaixonado pela foto!
ResponderExcluirPraticamente a verdadeira. Ted virou a cara antes que eu conseguisse pegar ele. Pra um fotografo ele odiava sair em fotos.
ExcluirClaro que passei ela no Chatgpt.