Esperei alguns minutos. Abri a bolsa devagar, capturei o isqueiro e o segurei de punho fechado. Levantei-me e fui até Ted. Apontei para a cadeira que Sofia havia deixado vaga. Ele assentiu, afastando alguns papéis para o lado. Observei o quanto ele parecia imerso na conversa anterior. Ele justificou o entusiasmo citando o encanto recente de Sofia pela obra de Salgado após o filme.
Tentei capturar sua atenção
mencionando que estava tentando entender uma coisa que ele havia comentado
outro dia, sobre Proust. Uma ideia que não teria saído da minha cabeça.
Quando Proust fala da busca do tempo perdido, comecei, ele não está falando de recuperar a oportunidade que passou, mas sim de encontrar momentos, cheiros, situações que nos tragam de volta à memória de um jeito tão vivo que o próprio evento parece acontecer de novo.
Se trata na verdade de uma ponte que atravessa o espaço-tempo, ligando momentos que não seguem
uma linha reta, mas se sobrepõem uns aos outros. O passado não desaparece, ele
só está esperando o momento certo para se revelar de novo e nos fazer sentir
tudo aquilo outra vez.
Encostei levemente o braço na
mesa, próximo ao dele.
Então, no fundo, Proust está
dizendo que é impossível recuperar a chance perdida, continuei. Imagine que eu
perca meu pai sem conseguir abraçá-lo. Ao buscar o tempo perdido, eu não vou
conseguir voltar no tempo e abraçá-lo. Essa chance está perdida, para sempre.
O que Proust explora em seus livros é a
recuperação da sensação, da emoção, da lembrança viva daquilo que vivemos ou
que poderíamos ter vivido. A memória quando ativada por um gatilho, seja um
cheiro, uma música, uma foto, consegue nos transportar para aquele momento com
tanta força que quase o revivemos, sentindo tudo de novo.
Fiz uma pausa breve, deixando as
palavras pairaram.
O “tempo reencontrado”, como ele
chama, é dor. É buscar, nesse gatilho, a falta do que se perdeu. É olhar uma
foto e reviver o abraço que não aconteceu. É uma dor profunda, porque é a
lembrança de algo que foi desejado, mas nunca se concretizou. A memória aqui
não é de uma sensação, mas de uma falta. Do vazio que o tempo não consegue
preencher. E é essa lembrança, essa dor da não-realização, que fica. Então,
buscar o tempo perdido é, na verdade, encarar a realidade dessa perda.
Nesse instante, deixei o isqueiro
deslizar da minha mão para cima dos seus papéis, no vão entre duas folhas.
Isso torna nossas decisões
eternas, concluí, a voz mais suave. Pensar nisso faz a gente lembrar das
escolhas que fez, e das que não fez. E da importância de estar com alguém que
realmente entende quem a gente é.
Sorri e me levantei, disse que
precisava ir fumar um cigarro e que conversaríamos mais depois. Saí da sala sem
olhar para trás.
Do corredor, através do vidro,
capturei o exato momento em que o olhar de Sofia recaiu sobre a mesa de Ted,
identificando o isqueiro. Ted acompanhou a direção do olhar dela, mas manteve o
silêncio.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."


Joyce sua saca é ótima! Enquanto a Sofia tava na superfície usando o gosto estético (Salgado) para criar uma conexão mais simples, você, Joyce, foi mais fundo e direto ao ponto. Em vez de falar de um gosto em comum, você tocou no que realmente move as pessoas: a memória, a perda e como isso nos define. É mais pessoal e potente.
ResponderExcluirEla é só visual, mas vc é alma! Ted pode gostar visualmente de Sofia, mas com você é uma companhia perfeita para vida!
Sua leitura de Proust é íntima, não teórica.
Joyce, vc arrasou! Fiquei pensantiva lendo essa parte. Vc é muito inteligente! 👏
Uau, Anna! Que leitura incrível. Você resumiu perfeitamente o meu sentimento. Eu precisava ir fundo para ter chance. Obrigada por me chamar de inteligente, isso significa muito!
ExcluirO isqueiro é como a chave de uma lembrança. Não é só um objeto esquecido; ele guarda memórias especiais dos momentos que você e Ted passaram juntos.
ResponderExcluirAo "escondê-lo" entre os papéis dele de propósito, ela está criando uma armadilha de saudade.
Ela força uma sobreposição de tempos e afetos. O isqueiro agora habita o espaço onde, instantes antes, habitava a conversa íntima entre Ted e Sofia. É um ato de marcação territorial e de contaminação da cena anterior.
A frase final antes da ação "a importância de estar com alguém que realmente entende quem a gente é" é um dardo duplo: é tanto uma crítica velada a Ted (que não a entende como você gostaria) quanto uma reivindicação de que você é quem o entende em uma camada mais profunda (Proust vs. Salgado).
Eu conseguiria fazer um trabalho sobre seu texto, rsrsrs. Mas duvido que isso tenha acontecido.
ResponderExcluirVocê duvida, mas eu garanto: a essência da cena é real! O Ted realmente é o tipo de pessoa que fala sobre esse tipo de coisa. Na vida real, a conversa que tivemos foi mais longa e confusa, e eu não fui tão eloquente quanto no texto, tive que resumir a ideia aqui para vocês. Mas o ato central, o xis da questão, foi real: eu fui lá, falei de Proust para cortar o clima com a Sofia, e deixei o isqueiro. Foi o meu lance mais ousado. Rsrsrs A parte mais importante da história é a emoção, e essa é 100% verdadeira.
ExcluirAquele momento que vc deixou o isqueiro na mesa, no meio dos papéis, foi tipo: "Agora é comigo, garota." Amei a sua atitude! Ele viu. Ela viu. O jogo virou! 💅
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