Saí da sala e caminhei pelo
corredor vazio, atravessado pelo sol. O jardim estava deserto, apenas o barulho
distante do trânsito e o som das folhas se movendo com a brisa. Escolhi uma
árvore afastada do prédio, com sombra suficiente, e me sentei.
Coloquei a mão no bolso da blusa,
peguei o maço de cigarros e só então me dei conta do óbvio: o isqueiro estava
lá dentro, entre os papéis de Ted. Uma ironia quase cruel. Eu havia saído para
fumar e agora estava aqui, completamente inútil. A vontade do café, bem forte,
bem quente, veio em seguida. Pensei em voltar, pegar uma xícara, mas isso
destruiria completamente a dramaticidade da minha saída.
Fiquei ali, incomodada, sem
cigarro, sem café, refletindo sobre essa necessidade súbita de ter as duas
coisas exatamente no momento em que não podia tê-las. Quando foi que me tornei
essa pessoa? A Joyce de meses atrás nem fumava. Café, sim, sempre gostei. No
início do ano eu jamais criaria situações como essa, nem sairia de uma sala de
forma tão teatral. Seria direta, honesta e ingênua, dizendo o que pensava sem
camadas de subtexto.
Mas a Joyce anterior não
conseguiria manter Ted interessado por muito tempo, ou por algum tempo. Não era
capaz de fazer com que alguém prestasse atenção. Será que eu havia me tornado
prisioneira da própria performance? Pensei nisso com uma irritação amarga. Me
perguntei quantas vezes ao dia eu assumia um papel. A mulher segura e
misteriosa que cruza as pernas com elegância estudada. A que escolhe a palavra
certa, o silêncio certo, o olhar certo. Tudo isso era escolha, ou disfarce?

Tragam um cigarro pra essa mulher rsrsrs
ResponderExcluirMe deu uma vontade de fumar
ResponderExcluirRsrsrs
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