O sonho me perseguiu. Caminhei pela casa em silêncio, buscando acalmar-me com o atrito dos pés contra o chão frio. Parei diante da estante. Os olhos deslizaram pelas lombadas até que os dedos encontraram o volume gasto de “O Amante”. A capa, áspera e marcada pelo tempo, tinha um tom indefinido.
Sentei-me à mesa, mas não consegui abrir o livro de imediato. Passei os dedos pela textura áspera da capa, sentindo as bordas amareladas onde meus dedos deixaram sua pátina. O cheiro do papel me deslocou da sala, levando-me para aquela tarde no sítio, onde o jornal sobre o peito do meu pai subia e descia ao ritmo da respiração.
As palavras que um dia escondi entre as pernas cruzadas na varanda dos fundos agora me vinham com outro peso. Naquele tempo, eu não entendia tudo. Hoje, entendia mais do que queria. Eu sabia o que era chegar atrasada a algo que começou cedo demais.
Eu lia, e o corpo da menina de pés frios, inclinada sobre o livro, respondia diferente. As mesmas palavras que antes me pareciam cifras misteriosas se revelavam com uma clareza que me assustava. Falavam do desejo que transcende barreiras sociais, da mãe que simultaneamente protege e sufoca, do despertar de uma consciência que é tanto libertação quanto aprisionamento.
Ela usava um sapato dourado de salto alto, encontrei na página marcada. Na época, a imagem me fascinava pela ideia de uma menina que, por conta própria, escolhia sapatos de mulher, que ousava decidir como queria ser vista. Hoje, eu entendo que o que me atraía era a coragem daquela transgressão.
A frase que sublinhei com lápis ainda estava ali, trêmula na margem amarelada: “Muito cedo foi tarde demais.” Entendia, finalmente, que não se tratava apenas de idade, mas de uma oportunidade perdida, de uma ousadia que chega quando já estamos aprisionadas por nossas próprias defesas.
Aos doze anos, eu lia sobre libertação escondida da minha mãe; agora, vivia minha vida inteira escondida dela também.
Não me dei conta do tempo. Só ao fechar o livro percebi que, embora a paz não tivesse chegado, o sol já estava no céu.

Joyce a frase sublinhada no livro funciona como um eixo teórico da sua própria narrativa: não se trata do tempo cronológico, mas do tempo psíquico, do momento em que conseguimos sustentar um desejo sem precisar escondê-lo.
ResponderExcluirO que mais me chamou atenção foi essa ideia de ter vivido a vida inteira “escondida da mãe”. Isso diz muito sobre como certas figuras continuam organizando nossas escolhas mesmo quando já somos adultas. É um texto maduro, contido, e justamente por isso tão potente.
Muito obrigada por entender tão profundamente. É exatamente essa a sensação que tentei passar.
ExcluirEssa sensação de reler um livro anos depois e entender TUDO de outra forma. É exatamente isso. "Muito cedo foi tarde demais" me deu um nó na garganta. Você escreve com uma honestidade que dói, mas que é tão necessária. Por favor, nunca pare. Te acompanho todos os dias. ❤️
ResponderExcluirObrigada de verdade. Saber que toca alguém assim me dá força para continuar. ❤️
ExcluirAcho incrível como você conecta as memórias do passado com o presente. A imagem do jornal subindo e descendo no peito do seu pai. Sensacional.
ResponderExcluirQue bom que essa imagem ressoou com você. Essas pequenas memórias às vezes carregam tanto.
ExcluirReflexão linda e dolorida. A parte da "ousadia que chega quando já estamos aprisionadas por nossas próprias defesas" é de uma lucidez brutal. O sonho de ontem ecoou em cada linha de hoje.
ResponderExcluirObrigada. Às vezes a lucidez vem junto com um certo peso, não é?
ExcluirEssa coisa da mãe é uma luta que muitas de nós travamos, mesmo longe. Você não está sozinha.
ResponderExcluirÉ reconfortante saber que não é uma luta só minha. Obrigada.
ExcluirJoyce, eu to chocada! como vc consegue traduzir em palavras algo tão complexo??? a parte do "chegar atrasada a algo que começou cedo demais" me representou totalmente. é exatamente essa sensação de que a vida te empurra pra um palco onde a peça já começou.
ResponderExcluirFico muito feliz (e um pouco aliviada) que tenha se identificado. Obrigada por partilhar isso.
ExcluirImpressionante como você transforma um relato íntimo em algo universal. A busca por identidade no espelho (de água, do passado, do livro) é tocante. E a frase final, sobre não perceber o tempo passar enquanto lia, é o maior elogio que um leitor pode receber. Seu blog é isso: a gente mergulha e esquece o mundo lá fora.
ResponderExcluirQue elogio lindo. Ler isso me emocionou. Muito obrigada
ExcluirJoyce, tudo bem? Só passando para dizer que seu texto de hoje ficou incrível. A forma como você descreve as sensações tá tão vívida que dá pra sentir a textura da capa do livro. Fico pensando como deve ser difícil reviver tudo isso, mas ao mesmo tempo, libertador. Você é muito forte. Continua!
ResponderExcluirOi! Tudo bem, obrigada. É libertador sim, mesmo sendo difícil. Agradeço pelo apoio.
ExcluirJoyce, eu me vi demais nesse texto de hoje. Não só na parte do livro, mas nessa sensação de entender o desejo quando ele já vem misturado com culpa e atraso. Pra mim o cigarro sempre foi isso tbm, um símbolo de atravessar uma linha que parecia proibida. Não é só fetiche, é identidade, é tomar posse do próprio corpo. Ler você me dá uma sensação estranha de companhia, como se alguém finalmente tivesse colocado em palavras algo que eu só sentia.
ResponderExcluirSua leitura foi perfeita. É sobre identidade e tomar posse, exatamente. Obrigada por essa companhia.
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