O corredor do meu prédio tinha o
cheiro estagnado de desinfetante preso em um ciclo sem ar fresco. Subi devagar,
calculando o intervalo entre os meus passos para que não soasse como pressa.
A porta do apartamento estava
entreaberta. Um detalhe mínimo, mas suficiente para acender um alerta no
estômago.
Entrei. A sala me recebeu com a
disposição imutável de sempre: o sofá voltado para a televisão desligada, o
tapete gasto formando sulcos onde os pés dos meus pais se fixavam noite após
noite, e a cristaleira cheia de copos que nunca eram usados.
Minha mãe estava na poltrona,
folheando uma revista velha, as páginas marcadas por dobras irregulares. Meu
pai, ao lado, girava o relógio no pulso, ajeitando-o e desajeitando de novo,
até levantar os olhos quando fechei a porta.
— Onde você estava? — perguntou
ele, sem rodeios.
Eu disse que tinha ido ao sebo.
Percebi que meu tom estava um pouco mais agudo. Minha mãe baixou a revista
devagar, olhando por cima das páginas com um sorriso tênue.
— Até essa hora? — a voz dela não
se elevou.
Pensei em dizer que havia perdido
a noção do tempo, mas sabia que soaria falso. Então acrescentei um detalhe
banal: a demora em encontrar um livro específico e a pausa na praça para dar
início à leitura. Entreguei o exemplar em suas mãos. Ela fez um gesto curto com
a cabeça, sem ao menos ler o título.
A televisão desligada devolvia
uma versão escurecida e distorcida da sala. Logo acima, as fotos presas à
parede pareciam nos observar. Guardiãs silenciosas, testemunhas e cúmplices de
uma ordem estabelecida.
Minha mãe se levantou, ajeitou a
manta sobre o sofá e disse, sem me olhar:
— É bom que não se acostume a
voltar tarde.
Fui para o quarto.
A cama com lençóis claros, a
escrivaninha com livros empilhados, a cortina que deixava passar apenas uma luz
filtrada. Fechei a porta e encostei as costas nela, sentindo a madeira fria
contra a nuca, deixando o ar sair dos pulmões devagar.
Horas depois, a luz do abajur mal
alcançava a escrivaninha. No celular, Ted queria saber se eu já tinha começado
a ler o livro. Respondi que estava cansada demais.
Ele disse que eu parecera
distante durante a tarde. Minha hesitação se revelava nas reticências que
digitava e apagava antes de enviar qualquer coisa. As respostas saíam curtas,
automáticas, e ele começou a perceber.
Comentou que gostaria que eu
tivesse ficado mais tempo. Fiquei olhando para a tela, sem saber o que dizer,
enquanto da cozinha vinha o som dos armários sendo fechados.
Comecei a escrever que também
queria ter ficado, que sentia a mesma falta, mas as palavras pareciam falsas
antes mesmo de se formarem. Apaguei tudo. A tela vazia refletia melhor o que eu
conseguia oferecer naquele momento.
A conversa morreu ali. Deixei o
celular sobre a mesa e fiquei observando o aparelho, cuja superfície escura
devolvia as sombras do quarto.

Essa sensação de calcular os passos pra ninguem perceber nada. Meus pais eram exatamente assim, aquela pressão silenciosa que sufoca.
ResponderExcluirJoyce, essa parte da "ordem estabelecida" e das fotos como "cúmplices" me deu um arrepio. É exatamente isso! A casa vira um tribunal mudo. Você está ótima, não para não!
ResponderExcluirJoyce, eu tenho 19 anos e passo por algo parecido HOJE. Ler seu texto foi como um alívio, saber que não sou a única que chega em casa e desliga completamente, que tem que apagar mensagens e fingir um cansaço que não é só físico. Obrigada por compartilhar.
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