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A Euforia Pós-sexo (26)

O corredor do meu prédio tinha o cheiro estagnado de desinfetante preso em um ciclo sem ar fresco. Subi devagar, calculando o intervalo entre os meus passos para que não soasse como pressa.

A porta do apartamento estava entreaberta. Um detalhe mínimo, mas suficiente para acender um alerta no estômago.

Entrei. A sala me recebeu com a disposição imutável de sempre: o sofá voltado para a televisão desligada, o tapete gasto formando sulcos onde os pés dos meus pais se fixavam noite após noite, e a cristaleira cheia de copos que nunca eram usados.

Minha mãe estava na poltrona, folheando uma revista velha, as páginas marcadas por dobras irregulares. Meu pai, ao lado, girava o relógio no pulso, ajeitando-o e desajeitando de novo, até levantar os olhos quando fechei a porta.

Onde você estava? — perguntou ele, sem rodeios.

Eu disse que tinha ido ao sebo. Percebi que meu tom estava um pouco mais agudo. Minha mãe baixou a revista devagar, olhando por cima das páginas com um sorriso tênue.

Até essa hora? — a voz dela não se elevou.

Pensei em dizer que havia perdido a noção do tempo, mas sabia que soaria falso. Então acrescentei um detalhe banal: a demora em encontrar um livro específico e a pausa na praça para dar início à leitura. Entreguei o exemplar em suas mãos. Ela fez um gesto curto com a cabeça, sem ao menos ler o título.

A televisão desligada devolvia uma versão escurecida e distorcida da sala. Logo acima, as fotos presas à parede pareciam nos observar. Guardiãs silenciosas, testemunhas e cúmplices de uma ordem estabelecida.

Minha mãe se levantou, ajeitou a manta sobre o sofá e disse, sem me olhar:

É bom que não se acostume a voltar tarde.

Fui para o quarto.

A cama com lençóis claros, a escrivaninha com livros empilhados, a cortina que deixava passar apenas uma luz filtrada. Fechei a porta e encostei as costas nela, sentindo a madeira fria contra a nuca, deixando o ar sair dos pulmões devagar.

Horas depois, a luz do abajur mal alcançava a escrivaninha. No celular, Ted queria saber se eu já tinha começado a ler o livro. Respondi que estava cansada demais.

Ele disse que eu parecera distante durante a tarde. Minha hesitação se revelava nas reticências que digitava e apagava antes de enviar qualquer coisa. As respostas saíam curtas, automáticas, e ele começou a perceber.

Comentou que gostaria que eu tivesse ficado mais tempo. Fiquei olhando para a tela, sem saber o que dizer, enquanto da cozinha vinha o som dos armários sendo fechados.

Comecei a escrever que também queria ter ficado, que sentia a mesma falta, mas as palavras pareciam falsas antes mesmo de se formarem. Apaguei tudo. A tela vazia refletia melhor o que eu conseguia oferecer naquele momento.

A conversa morreu ali. Deixei o celular sobre a mesa e fiquei observando o aparelho, cuja superfície escura devolvia as sombras do quarto.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Essa sensação de calcular os passos pra ninguem perceber nada. Meus pais eram exatamente assim, aquela pressão silenciosa que sufoca.

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  2. Joyce, essa parte da "ordem estabelecida" e das fotos como "cúmplices" me deu um arrepio. É exatamente isso! A casa vira um tribunal mudo. Você está ótima, não para não!

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  3. Joyce, eu tenho 19 anos e passo por algo parecido HOJE. Ler seu texto foi como um alívio, saber que não sou a única que chega em casa e desliga completamente, que tem que apagar mensagens e fingir um cansaço que não é só físico. Obrigada por compartilhar.

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