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A Euforia Pós-sexo (28)

O dia inteiro foi um incômodo. O telefone, o arrastar de cadeiras, o bater do teclado; tudo irritava. Mas nada feria mais que a lembrança de Sofia cruzando o corredor.

Empurrei a porta do banheiro feminino. O eco bateu contra as cabines vazias. Escolhi a última. A fechadura girou com um clique seco.

Ninguém precisava saber de Ted e de mim. Mas se soubessem, talvez ela recuasse. Ou talvez não. Talvez transformasse o conhecimento em um palco ainda maior.

Na minha cabeça, cada gesto dela se repetia: o riso com a cabeça jogada para trás, o lábio preso entre os dentes quando falava. E, sobretudo, os dois botões a menos na blusa quando sabia que ele chegava mais cedo.

O maço pesava no bolso, junto ao isqueiro novo, vermelho. O cigarro deslizou para os lábios com familiaridade. A chama surgiu tímida, mas furou o ar estéril do banheiro; dançou por dois segundos antes de tocar o tabaco. Uma pequena transgressão. 

A nicotina afrouxou meus ombros. Por alguns minutos, aquele espaço era um santuário. Via partículas suspensas, lentas demais para pertencerem à realidade. A fumaça subia até o teto baixo, um segredo entre mim e o espelho. Olhei-me de lado, a boca soltando fumaça; havia algo indecente naquela solidão.

Do lado de fora, passos iam e vinham. Do lado de dentro, eu decidia não disputar nada com Sofia; apenas a faria ver que eu já tinha vencido. O plano era simples e silencioso: contar sem, de fato, contar.

Ninguém nunca soube que, por dez minutos, eu fora completamente livre naqueles cinco metros quadrados. O cigarro queimou até o filtro e eu o apaguei na porcelana branca.

Antes de ir, conferi meu reflexo no espelho acima das pias. Lavei as mãos devagar e borrifei água no rosto. O toque gelado misturou-se à minha pele quente. A fumaça não tinha sumido; eu a levava comigo, impregnada na roupa. Uma mancha invisível, tão eloquente quanto um beijo em público. Ao estender a mão, meu reflexo se partira no metal polido do trinco da porta.

O resto do turno se perdeu em gestos automáticos. Ao final do expediente desligamos os computadores e as luzes foram se apagando uma a uma, engolindo as mesas e as cadeiras vazias. As ruas lá fora eram apenas um borrão de postes e asfalto, um interlúdio escuro e indistinto entre um ato e outro. Havia chegado a pequena quebra semanal, nossa próxima parada na rotina. Dormiríamos juntos novamente.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Gente o que será que ela guardou no bolso???? Fiquei curiosa dms. Joyce vc descreve tudo tão bem que eu consegui sentir o cheiro do cigarro no banheiro kkk.

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  2. Nossa Joyce, feliz natal pra vc primeiramente!! 🎅 Mas menina que ódio dessa Sofia toda empresa tem uma dessas né? Chega se esfregando nos cara. E o Ted tb não é santo não viu, ficou todo bobo com a atenção.

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  3. Feliz Natal Joyce! ❤️

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