O dia inteiro foi um incômodo. O
telefone, o arrastar de cadeiras, o bater do teclado; tudo irritava. Mas nada
feria mais que a lembrança de Sofia cruzando o corredor.
Empurrei a porta do banheiro
feminino. O eco bateu contra as cabines vazias. Escolhi a última. A fechadura
girou com um clique seco.
Ninguém precisava saber de Ted e
de mim. Mas se soubessem, talvez ela recuasse. Ou talvez não. Talvez transformasse
o conhecimento em um palco ainda maior.
Na minha cabeça, cada gesto dela
se repetia: o riso com a cabeça jogada para trás, o lábio preso entre os dentes
quando falava. E, sobretudo, os dois botões a menos na blusa quando sabia que
ele chegava mais cedo.
O maço pesava no bolso, junto ao
isqueiro novo, vermelho. O cigarro deslizou para os lábios com familiaridade. A
chama surgiu tímida, mas furou o ar estéril do banheiro; dançou por dois
segundos antes de tocar o tabaco. Uma pequena transgressão.
A nicotina afrouxou meus ombros.
Por alguns minutos, aquele espaço era um santuário. Via partículas suspensas,
lentas demais para pertencerem à realidade. A fumaça subia até o teto baixo, um
segredo entre mim e o espelho. Olhei-me de lado, a boca soltando fumaça; havia
algo indecente naquela solidão.
Do lado de fora, passos iam e
vinham. Do lado de dentro, eu decidia não disputar nada com Sofia; apenas a
faria ver que eu já tinha vencido. O plano era simples e silencioso: contar
sem, de fato, contar.
Ninguém nunca soube que, por dez
minutos, eu fora completamente livre naqueles cinco metros quadrados. O cigarro
queimou até o filtro e eu o apaguei na porcelana branca.
Antes de ir, conferi meu reflexo
no espelho acima das pias. Lavei as mãos devagar e borrifei água no rosto. O
toque gelado misturou-se à minha pele quente. A fumaça não tinha sumido; eu a
levava comigo, impregnada na roupa. Uma mancha invisível, tão eloquente quanto
um beijo em público. Ao estender a mão, meu reflexo se partira no metal polido
do trinco da porta.
O resto do turno se perdeu em gestos automáticos. Ao final do expediente desligamos os computadores e as luzes foram se apagando uma a uma, engolindo as mesas e as cadeiras vazias. As ruas lá fora eram apenas um borrão de postes e asfalto, um interlúdio escuro e indistinto entre um ato e outro. Havia chegado a pequena quebra semanal, nossa próxima parada na rotina. Dormiríamos juntos novamente.

Gente o que será que ela guardou no bolso???? Fiquei curiosa dms. Joyce vc descreve tudo tão bem que eu consegui sentir o cheiro do cigarro no banheiro kkk.
ResponderExcluirNossa Joyce, feliz natal pra vc primeiramente!! 🎅 Mas menina que ódio dessa Sofia toda empresa tem uma dessas né? Chega se esfregando nos cara. E o Ted tb não é santo não viu, ficou todo bobo com a atenção.
ResponderExcluirFeliz Natal Joyce! ❤️
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