Infelizmente, sem a plateia, o
fascínio pela “noite”, que outrora me consumia, desapareceu, deixando apenas a
incompreensão. Lá dentro, o bar seguia apático, até que uma voz rompeu o
murmúrio constante:
— Tudo bem, a gente faz do seu
jeito.
Aquela frase me lembrou de todas
as vezes em que disse “sim” quando deveria dizer “não”; das opiniões que engoli
calada depois de aprender, da pior maneira, que o amor exigia sacrifícios. E
eu, criatura dócil, me aprimorei no sacrifício de mim mesma.
Durante anos, fui moldada pelas
expectativas dos meus pais. Cada uma delas representou uma parte que precisei
suprimir ou modificar. Sentada ali, sob as lâmpadas amareladas, entendi que o
mundo antigo, aquele no qual aprendera a amar através da subtração, já não me
servia. Me arrumar no espelho havia se tornado um exercício de arqueologia
emocional, uma tentativa de encontrar quem eu poderia ter sido. E reconhecer
isso custou caro: significava admitir que desperdiçara anos cultivando uma
versão que existia apenas para preencher as lacunas dos meus pais. Uma Joyce
editada e polida, reduzida às dimensões exatas que cabiam em seus vazios.
Quando conheci Ted, acreditei ter
encontrado a liberdade. Pela primeira vez, alguém me via fora das expectativas
dos meus pais. Era bom descobrir que eu tinha gostos próprios e que podia
realizá-los sem que o mundo desabasse.
Mas ali, percebi com um aperto no
peito que apenas havia trocado uma forma de anulação por outra. Se antes me
moldava para ser a filha perfeita, agora me recriava para ser a namorada ideal
e aquela que ele desejava. A ironia era cruel: libertara-me dos meus pais
apenas para me oferecer novamente. E, como a escolha fora minha, parecia ainda
mais definitiva.
Havia imaginado que o amor seria
reconhecimento mútuo — duas pessoas inteiras escolhendo permanecer juntas —,
não uma pessoa se fragmentando para preencher as faltas da outra. Mas a
realidade mostrou-se bem diferente das expectativas românticas que carregara
desde a adolescência. O desejo exigia que permanecesse inteira enquanto me
entregava; mas eu não sabia como ser eu mesma sem afastar aquilo que amava.
Meu corpo começou a se
distanciar. O ar da rua ficou pesado. As luzes dos postes piscavam. O vento
soprou forte, espalhando papéis pelo chão. Aos meus pés, a poça de água
refletia uma sombra sem rosto. Tentei arrumar o cabelo, mas a mão parou no meio
do caminho. Descalcei os sapatos. O céu ficou mais baixo, a cidade, menor.
Todos os meus músculos se contraíram de uma vez, consumidos por uma fadiga
profunda. O celular vibrou em meu bolso. Deixei que escorregasse pelos dedos e
caísse no asfalto, sem coragem de ver quem era.
Por um instante, não reconheci o
lugar. Tudo parecia observado de fora: a luz da lâmpada era fraca; sons
chegavam de dentro. Pessoas encostadas às paredes. Garrafas empilhadas no
canto.
Não houve lágrimas. Não houve
gritos.
Fiquei sentada na calçada fria,
ouvindo o mundo continuar ao meu redor.
A volta para casa foi confusa.
Tudo o que eu queria era me deitar e me encolher debaixo do cobertor, mas a
cama, com a colcha esticada e enfeitada com bonecas de pano, não permitia.
Levei tudo ao chão. No guarda-roupa entreaberto, arranquei o edredom e ouvi o
som seco de algo caindo no fundo.
Era uma caixa de música,
esquecida ali desde a infância. Feita de madeira clara e polida pelo toque de
mãos pequenas. A base redonda tinha uma chave de metal, fria ao toque. Girei-a.
Sob o dossel, três bailarinas delicadas e pintadas de branco equilibravam-se
com os braços arqueados acima da cabeça.
Um som metálico, que permanecera
anos em silêncio, saiu desafinado, quase arranhado. Uma melodia infantil encheu
o quarto, embalada pelo girar das bailarinas. As lembranças voltaram com força.
Abri a tampa da lixeira. Por um
instante, hesitei. Então, deixei a caixa escorregar da minha mão. O som oco do
impacto não abafou a melodia, que continuou tocando sob a tampa fechada.

Joyce, seu texto me deu um nó na garganta. Essa frase libertara-me dos meus pais apenas para me oferecer novamente descreve exatamente o que passamos. Ver você jogando aquela caixa de música fora doeu. Doloroso, mas necessário.
ResponderExcluirA imagem da melodia infantil continuando a tocar dentro da lixeira é de uma força poética absurda. Mostra que o passado não cala a boca só porque a gente quer, né? É preciso coragem para admitir que a gente se "editou" para caber no vazio de alguém. Sua escrita amadureceu muito nesse post, Joyce. É triste, mas é real demais.
ResponderExcluirEu nunca soube explicar esse cansaço de "se arrumar no espelho como um exercício de arqueologia emocional" até ler seu post hoje. Você deu nome a um sentimento que eu carrego há anos. Às vezes a gente se perde tanto tentando ser a 'namorada ideal' que esquece quem era antes do teatro começar. Força, Joyce.
ResponderExcluirO contraste entre a sujeira da calçada do bar e a delicadeza forçada das bonecas de pano no quarto que narrativa visual incrível. Esse momento em que o celular escorrega pelos dedos e você simplesmente desiste de atender é o ápice da exaustão. Senti sua fadiga daqui. É um desabafo corajoso.
ResponderExcluirJoyce, ler sobre você jogando as bonecas e o edredom no chão me fez querer levantar e fazer o mesmo. Chega uma hora que a criatura dócil cansa de sangrar para alimentar o ego dos outros. Ver você quebrando esse personagem da Joyce polida dói, mas parece ser o começo da sua verdadeira história. Continua escrevendo, por favor.
ResponderExcluirJoyce, que mergulho profundo e doloroso você nos proporcionou. O que mais me impressionou na sua narrativa foi a precisão com que você descreve o processo de despersonalização. Essa "arqueologia emocional" diante do espelho é uma metáfora perfeita para quem vive em constante estado de adaptação ao desejo do outro.
ResponderExcluirÉ fascinante (e angustiante) notar como você percebeu que sua identidade era performática — tanto para seus pais quanto para o Ted. Quando você fala da "pessoa se fragmentando para preencher lacunas", fica claro que você não era mais um sujeito da própria vida, mas um objeto moldado. O ato de jogar a caixa de música no lixo parece ser o primeiro momento em que você rompe com essa "Joyce editada" para tentar encontrar o que restou sob os escombros dessas expectativas. Escrita poderosa e necessária
Ler isso hoje, no último dia do ano, doeu. Essa imagem da caixa de música indo para o lixo, mas continuando a tocar é impossível não pensar em tudo o que a gente tenta descartar e insiste em nos acompanhar. Obrigada por escrever sem suavizar a perda de si mesma. Foi honesto, e raro.
ResponderExcluirVocê descreveu algo que nunca consegui colocar em palavras: essa troca de uma prisão por outra, achando que era liberdade. Quando falou sobre ser inteira e, ao mesmo tempo, ter que se fragmentar para amar, senti um nó na garganta. Estou acompanhando todos os dias e esse texto foi um dos mais fortes.
ResponderExcluirA cena da calçada Não houve lágrimas, não houve gritos e ainda assim tudo desmoronou. É impressionante como você consegue mostrar o colapso sem espetáculo, só com cansaço.
ResponderExcluirEsse trecho sobre seus pais foi devastador. A ideia de uma versão “editada e polida” de si mesma, criada para preencher vazios alheios acho que muita gente que lê aqui se reconhece nisso. Ler no dia 31/12 dá uma sensação estranha de balanço de vida que não cabe em listas de metas.
ResponderExcluirTed apareceu como libertação e terminou como espelho do mesmo mecanismo, isso é cruel mesmo. O mais doloroso é perceber que a escolha foi sua, e ainda assim não foi liberdade. Obrigada por não romantizar o amor nem se poupar de mostrar a contradição.
ResponderExcluirA caixa de música é uma imagem linda e perturbadora. Algo infantil, delicado, desafinado pelo tempo e que continua tocando mesmo no lixo. Fiquei pensando em quantas memórias nossas ficam assim, tocando sozinhas, fora de lugar. Seu texto ficou ecoando depois que terminei de ler.
ResponderExcluirTenho a sensação de que este texto marca um fim não só do ano, mas de alguma coisa maior. Não sei se para a Joyce daquele tempo ou para você agora, escrevendo. Talvez para as duas. Obrigada por compartilhar algo tão íntimo sem pedir empatia, apenas oferecendo verdade.
ResponderExcluirAcompanhar essa história diariamente virou um ritual. Hoje, especialmente, pareceu uma despedida de versões antigas, mesmo que doa. Que a melodia da caixa finalmente pare, ou que você aprenda a escutá-la sem precisar se diminuir. Estarei aqui amanhã também.
ResponderExcluirPrimeiro comentário de 2026. Joyce você é ótima. Esse ano vai ser melhor. Até amanhã ☺️
ResponderExcluir❤️❤️❤️❤️
ResponderExcluirAnsioso pela continuação
ResponderExcluirKarina, não vale dar atenção. Isso é comentário de quem não leu ou não entendeu. Tem gente que só tem malícia para oferecer e usa provocação como pedido de atenção. É o mesmo mecanismo de criança que aprendeu que atenção vem pelo incômodo. O melhor é apenas ignorar.
ResponderExcluirMuito obrigada pelos comentários. Escrevo para vocês.
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