Sofia jogou os cabelos para trás,
expondo o brilho dos fios sob a luz. Ela começou a falar sobre um filme
francês, O Sal da Terra, de Wim Wenders. Sabia do fascínio de Ted por Sebastião
Salgado, afinal, ele tinha vários livros do fotógrafo e se inspirava nele para
fazer suas próprias fotos. Ted passou horas ao meu lado, folheando aqueles
livros enormes e explicando composição e luz. Eu fingia prestar atenção, mas
estava muito mais interessada no modo em que as palavras saíam de sua boca.
Sofia mencionou uma cena
específica, algo sobre um campo de petróleo em chamas. Ela descreveu a imagem:
algo quase bíblico, uma fotografia diante do apocalipse. Ted concordou. Era uma
das fotos favoritas dele. Falou da maneira que Salgado transformava catástrofe
em poesia.
Logo em seguida, Sofia mencionou
outra imagem: um retrato silencioso de mulheres e crianças envoltas em mantos,
paradas em uma paisagem árida e vazia. Ela descreveu crianças que não pediam
nada, apenas olhavam com um vazio pior do que o choro. Ted permaneceu em
silêncio por alguns segundos, o olhar distante, perdido entre Sofia e a
lembrança da foto. Ele murmurou que aquela imagem era da época em que Salgado
esteve na África, e que era possível sentir a tangibilidade da fome nas dobras
das roupas e na poeira suspensa no ar.
Sofia havia encontrado exatamente
onde apertar. Eles falavam de dor e beleza com a mesma trivialidade de quem
discute vinho ou música. Isso era o que mais me incomodava: a naturalidade com
que pareciam se entender. Ela acessara a paixão dele com uma facilidade que eu
raramente alcançava, naquele ambiente onde Ted mantinha suas defesas erguidas.
Sofia finalizou algo sobre o
retorno à natureza e o mundo intocado do Gênesis. Ted riu baixo, concordando.
Em seguida, ela se levantou e voltou para o computador, exalando satisfação.

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Amo Sebastião Salgado!
ResponderExcluirEle é um gênio mesmo!
ExcluirNossa Joyce, que situação! Vc descreveu tudo tão bem q parecia q eu tava lah, sentada do seu lado, sentindo a raiva e a inveja. O Ted nem pra disfarçar né? Vc acha q ele sabia do jogo dela? Ou tava só curtindo a atenção? Conta mais, precisamos saber o q aconteceu depois! 😢
ResponderExcluirObrigada! Fiquei com muita raiva, sim. O Ted confessou que fazia de propósito para me dar ciúmes.
ExcluirJoyce, vc tem muito talento pra escrever. A forma como vc descreveu cada detalhe, a queda estratégica do cabelo, o perfume amadeirado deu pra sentir o cheiro do tabaco e do perfume de longe! Mas o que me pegou foi o lance do filme. Ela indo exatamente no ponto fraco dele o Salgado, isso não foi coincidência. Ela fez a lição de casa! O seu Ted, no fim das contas, foi muito mole de ceder assim pra conversa fiada dela.
ResponderExcluirQue bom que gostou da descrição! E sim, concordo com você. Não foi coincidência nenhuma. Ela fez a lição de casa. Fiquei frustrada com o Ted também.
ExcluirJoyce, esse relato é devastador. Você capturou a humilhação de ser espectadora da própria exclusão.
ResponderExcluirSua escrita transforma gestos e olhares simples em uma profunda reflexão sobre carinho, poder e solidão.
O conflito principal da história não é o que pode ou não acontecer entre Ted e Sofia. O verdadeiro drama está emcomo você está se despedaçando por dentro. Você é obrigada a assistir, sem poder fazer nada, à prova de que a conexão que ele tanto desejava é, na realidade, uma distância imensa e intransponível.
Nossa, que profundo! Você acertou em cheio, Anna. É exatamente essa sensação: de estar de fora e ver tudo. Obrigada por entender o que eu senti.
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