O ponto de ônibus estava quase deserto, entregue ao fim do dia. Sentei-me no banco de concreto, a bolsa caída aos pés, as mãos inquietas. Meu corpo leve arqueava ao vento frio, repleto de poeira. O maço estava na minha mão. Não lembrava de tê-lo tirado da bolsa; parecia já estar ali, enraizado.
Minhas unhas batiam no papelão amassado. Eu olhava para a foto dos pulmões manchados no maço, para o aviso impresso em letras enormes. Havia me prometido não entrar naquela estatística. Mas ali estava eu, cercada de concreto, prestes a repetir o gesto que me havia definido nas últimas semanas.
Abri o maço e retirei um cigarro. O filtro tinha um cheiro adocicado que, outrora, eu odiara. Olhei ao redor. As mulheres que passavam vestiam roupas leves, caminhando sem medo. Umas falavam ao celular, outras riam; todas pareciam saber onde pertenciam. Tinham passos firmes, saias curtas, cabelos soltos. Uma liberdade que lhes era natural e a mim, impossível.
O ônibus demorava. Eu, de rosto pálido e boca entreaberta. Acendi o cigarro. A chama tremulou no vento, mas resistiu. A primeira tragada veio áspera. Não houve prazer nem vertigem, apenas um amargor seco que arranhou a garganta. Tosses curtas escaparam antes que eu conseguisse controlá-las.
Olhei para a ponta incandescente. Era um farol minúsculo anunciando o nada. Pensei no ato repetido, no ritual vazio. Tive medo de me tornar fumante. Não sabia se aquilo era rebeldia ou liberdade, ou se eu apenas repetia um gesto aprendido. A fumaça saiu dos meus lábios e subiu num fio quebradiço, dissolvendo-se antes de chegar ao toldo.
Fiquei ali, o cigarro entre os dedos trêmulos, o olhar perdido. As pessoas continuavam a passar. Olhei outra vez para elas; por um instante, desejei poder seguir uma. Mas permaneci imóvel, tragando de novo o sabor amargo, sem qualquer promessa de salvação.
O cigarro terminou rápido. Esmaguei-o contra o chão. O gosto permaneceu na boca.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

“Tive medo de me tornar fumante “, nesta época ainda não se considerava uma fumante? Mesmo já fazendo parte da sua rotina? Nesta etapa mais ou menos quntytempo desde o primeiro cigarro?
ResponderExcluirAntes era só prazer e diversão. Não me considerava viciada.
ResponderExcluirAté hoje não me considero rsrsrs
É uma palavra feia.
Acredito que é mais sobre ter ou não controle.
Hoje faz 5 dias que estou sem fumar. E só agora me deu vontade. Uma baita vontade. Mas to segurando.
ResponderExcluirQueria recomendar
ResponderExcluirhttps://youtube.com/@stwabeebunnyy?si=QY2hJAth9vh1Ip0f
Ela é linda!
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