No quarto, tudo estava em ordem.
A colcha alinhada, as bonecas imóveis. Fechei os olhos e tentei respirar, mas o
corpo todo tremia. Tirei o celular do bolso e apertei o play sem pensar. Uma
melodia baixa e insistente tentou me acalmar. Ouvi o som abafado das vozes dos
meus pais no corredor; uma discussão alta e urgente. Eles tentavam entender o
que havia acontecido, como sua filha obediente havia se transformado em algo
que não reconheciam mais.
Fechei os olhos e me concentrei
na música, mas as vozes cresceram, aproximando-se, até que a porta se abriu com
violência. A maçaneta bateu contra a parede com um estrondo, fazendo minhas
costas enrijecerem.
Meu pai parou no umbral,
segurando o maço de cigarros vazio. Seu rosto trazia a expressão de quem
acabara de descobrir algo terrível, a confirmação de uma suspeita que ele não
queria ter. Minha mãe apareceu atrás dele, com os olhos vermelhos e as mãos ligeiramente
trêmulas. Na cama, eu permaneci imóvel, sem saber o que fazer.
O maço deve ter caído da bolsa
junto com os papéis no corredor. Como não o vi? Como não notei? Por que não o
joguei fora? Agora estava ali, evidência irrefutável de algo que eu não
conseguia mais negar.
Meu pai deu alguns passos para
dentro do quarto e ergueu o braço. Não houve palavras, apenas um gesto seco: a
palma da mão encontrou meu rosto num impacto surdo. A dor demorou a chegar, e
meu corpo oscilou para trás sem tombar. Fiquei parada. O rosto queimava onde a
mão dele havia batido. Quando ele finalmente falou, a voz estava controlada,
mas eu podia sentir a violência contida por trás de cada palavra. Quis
explicar, dizer que não era tão ruim assim, mas as palavras não vieram. Só
consegui ficar ali, sentada na cama, olhando para o maço vazio que jazia no assoalho,
testemunha muda, revelando muito mais do que eu gostaria.
— Por quê, Joyce? Por quê? —
minha mãe soluçou, com a voz quebrada.
Não pensei em outra coisa, não
pensei em nada. Eu não conseguia pensar.
— Não é meu… é do meu namorado.
Eles se entreolharam, incrédulos.
A expressão de horror no rosto de minha mãe ficou ainda mais profunda, e meu
pai cerrou os punhos, sentindo que a mentira era uma ofensa maior que a própria
descoberta.
Em silêncio, meu pai foi até a
janela. O cadeado fez um clique breve. Ele murmurou algo para minha mãe e a
puxou para fora. A porta bateu. O som da chave girando soou do lado de fora.
Sentei no chão, com as costas
contra a parede e os joelhos dobrados. Cruzei os braços em torno das pernas,
tentando me conter entre meus próprios ossos. Uma melodia familiar surgiu do
celular. A voz áspera e carregada de melancolia de Kelly Jones tomou o quarto.
Os versos de Maybe Tomorrow conversavam comigo em silêncio. Deixei que meus
olhos se fechassem, permitindo que as lágrimas viessem no seu próprio tempo.
Minhas bonecas de pano me
observavam com seus olhos de botão. Pareciam aguardar um gesto qualquer: que eu
arrumasse a cama, recolhesse o maço ou me levantasse para apagar a luz. Mas eu
estava além de qualquer gesto. Limitava-me a respirar, lenta e profundamente,
enquanto a canção repetia sua promessa frágil: so maybe tomorrow I’ll find my
way home.
Uma delas, a mais antiga, tinha a cabeça levemente inclinada, um fio de lã solto no lugar do cabelo. Sob sua vigília muda, senti que compartilhávamos da mesma fragilidade: uma costura prestes a se desfazer, um silêncio que já não sabia proteger. O frio do piso subia pela calça, lento e insistente. E o refrão retornava, simples, repetitivo, quase um acalanto: so maybe tomorrow I’ll find my way home.

"Maybe Tomorrow" é uma musica q ja é triste, agr lendo sua historia ela vai ter outro significado pra mim. Impressionante como vc descreveu o pai... esse "controle" dele é o q mais assusta. E a gnt mentindo no desespero ("é do meu namorado") pra tentar sobreviver ao momento. Te entendo perfeitamente.
ResponderExcluirA mentira q a gnt inventa na hora do pânico é foda ne? A gente sabe q eles nao vao acreditar mas o cerebro trava. Vc descrevendo a boneca com o fio de lã solto foi o ápice pra mim. Simbolo total de como vc tava se sentindo. Se desfazendo.
ResponderExcluirA cena do quarto, as bonecas, a música tentando salvar alguma coisa, tudo tão silenciosamente violento. Não é só sobre o tapa, é sobre o antes e o depois dele.
ResponderExcluirObrigada por não romantizar a dor e, ao mesmo tempo, não transformá-la em espetáculo. É íntimo, é desconfortável, é verdadeiro. Vou continuar lendo.
Tive de comentar novamente.
ResponderExcluirEssa parte do maço vazio no chão. Um objeto tão pequeno carregando tanta culpa, tanto medo. Eu já estive aí, nesse lugar em que uma coisa mínima vira prova de que você deixou de ser quem esperavam.
Quando você cita Maybe Tomorrow, parece que o quarto inteiro respira junto com a letra. Dá vontade de sentar no chão ao seu lado e ficar em silêncio.
ResponderExcluirAs bonecas olhando, imóveis, foi cruel de um jeito bonito. Elas não fazem nada, não ajudam, não julgam, só existem. Como testemunhas. Fiquei pensando em quantas infâncias ficam paradas assim, observando a própria quebra.
ResponderExcluirNão consegui parar de pensar na frase “entre meus próprios ossos”. É isso. Quando o mundo falha, a gente tenta se segurar por dentro. Texto duro mas necessário.
ResponderExcluirO mais doloroso é a tentativa de explicação que não sai. A mentira dita sem força, só para sobreviver ao momento.
ResponderExcluirVocê escreve o silêncio melhor do que muita gente escreve o grito.
ResponderExcluirEu li escutando a música. Várias vezes.
ResponderExcluir😔😢😭😥❤️❤️❤️❤️
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