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Cai o Pano (21)

A manhã surgiu sem aviso, uma claridade atravessando as frestas da janela trancada. Eu permaneci deitada, ouvindo os sons da casa que ganhavam volume: o ranger controlado de uma porta, o arrastar de chinelos no corredor, a descarga no banheiro. O tempo não passava; coagulava-se em torno de mim, espesso e opressivo. Eu me encolhia nos lençóis, protelando o inevitável confronto, o instante em que meus pés tocariam o chão frio e me levariam à mesa do café, desprovida de qualquer ternura.

Mas a chave não girou na fechadura. As horas se estenderam assombrando meus aposentos.

Podia ver o sol a pino pela janela quando a porta enfim se abriu. Minha mãe entrou sem pressa nem escândalo, apenas frieza. O olhar não buscava explicação, mas verificação.

Quem é ele? — disse. Não era uma pergunta.

Engoli seco. Disse o nome. Só o nome. Mas bastou.

Meu pai juntou-se a ela, deixando a chave repousar sobre a escrivaninha. Seus olhos me atravessaram com dureza. Não levantou a voz. Chamou-me de impura, decepcionante, quebrada.

Frases inteiras se formavam na minha cabeça, respostas que buscavam um mínimo de dignidade, mas todas se dissolviam antes de sair, confirmando minha suposta leviandade.

Levantei correndo e me tranquei no banheiro, saindo de lá apenas quando os ouvi se retirando para o quarto deles. Na cozinha, o almoço estava frio, e eu o engoli sem gosto, com pressa. Voltei para o meu quarto. O edredom dobrado, a cama arrumada, as bonecas imóveis sobre a colcha. Minha mãe tinha imposto sua ordem.

Passei a tarde resistindo à confusão mental, procurando um pouco de paz sozinha no meu quarto.

Ao entardecer, minha mãe entrou. Ela não perguntou como eu estava, apenas queria saber como ele era. A idade, a profissão, a origem.

Minha resposta foi um murmúrio desarticulado, um amontoado de palavras fracas sobre ele ser um colega de trabalho, alguém de quem eu gostava. Foi inútil. A palavra "colega" soou como um insulto para meu pai, que esperava no corredor.

Ele entrou, não queria mais ouvir sobre Ted. Ele queria falar com Ted. Exigiu o número. Sua mão estendeu-se, a palma virada para cima, uma ordem final e incontestável: queria meu celular. A rendição foi amarga. Com os dedos tremendo de forma quase imperceptível, procurei o contato no telefone e o entreguei.

Ele pegou o aparelho e ativou o viva-voz para que todos escutassem. Ligou. Era o começo de algo que eu não teria como controlar.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Nossa, Joyce. Vc descreve mto bem esse sentimento de estar presa dentro da propria casa. E agora esse final o que o seu pai falou pro Ted?? To aki roendo as unhas esperando

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  2. Entregar o celular pro pai ligar pro namorado na sua frente é o pesadelo de qualquer pessoa. Eu entendo o tremor nas suas mãos.

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  3. Quando seu pai chama você de impura, decepcionante, quebrada parece que ele tenta te reduzir a palavras para não ter que lidar com a pessoa inteira. É cruel e muito real.

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