A manhã surgiu sem aviso, uma
claridade atravessando as frestas da janela trancada. Eu permaneci deitada,
ouvindo os sons da casa que ganhavam volume: o ranger controlado de uma porta,
o arrastar de chinelos no corredor, a descarga no banheiro. O tempo não
passava; coagulava-se em torno de mim, espesso e opressivo. Eu me encolhia nos
lençóis, protelando o inevitável confronto, o instante em que meus pés tocariam
o chão frio e me levariam à mesa do café, desprovida de qualquer ternura.
Mas a chave não girou na
fechadura. As horas se estenderam assombrando meus aposentos.
Podia ver o sol a pino pela
janela quando a porta enfim se abriu. Minha mãe entrou sem pressa nem
escândalo, apenas frieza. O olhar não buscava explicação, mas verificação.
— Quem é ele? — disse. Não era
uma pergunta.
Engoli seco. Disse o nome. Só o
nome. Mas bastou.
Meu pai juntou-se a ela, deixando
a chave repousar sobre a escrivaninha. Seus olhos me atravessaram com dureza.
Não levantou a voz. Chamou-me de impura, decepcionante, quebrada.
Frases inteiras se formavam na
minha cabeça, respostas que buscavam um mínimo de dignidade, mas todas se
dissolviam antes de sair, confirmando minha suposta leviandade.
Levantei correndo e me tranquei
no banheiro, saindo de lá apenas quando os ouvi se retirando para o quarto
deles. Na cozinha, o almoço estava frio, e eu o engoli sem gosto, com pressa.
Voltei para o meu quarto. O edredom dobrado, a cama arrumada, as bonecas
imóveis sobre a colcha. Minha mãe tinha imposto sua ordem.
Passei a tarde resistindo à
confusão mental, procurando um pouco de paz sozinha no meu quarto.
Ao entardecer, minha mãe entrou.
Ela não perguntou como eu estava, apenas queria saber como ele era. A idade, a
profissão, a origem.
Minha resposta foi um murmúrio
desarticulado, um amontoado de palavras fracas sobre ele ser um colega de
trabalho, alguém de quem eu gostava. Foi inútil. A palavra "colega"
soou como um insulto para meu pai, que esperava no corredor.
Ele entrou, não queria mais ouvir
sobre Ted. Ele queria falar com Ted. Exigiu o número. Sua mão estendeu-se, a
palma virada para cima, uma ordem final e incontestável: queria meu celular. A
rendição foi amarga. Com os dedos tremendo de forma quase imperceptível,
procurei o contato no telefone e o entreguei.
Ele pegou o aparelho e ativou o
viva-voz para que todos escutassem. Ligou. Era o começo de algo que eu não
teria como controlar.

Nossa, Joyce. Vc descreve mto bem esse sentimento de estar presa dentro da propria casa. E agora esse final o que o seu pai falou pro Ted?? To aki roendo as unhas esperando
ResponderExcluirEntregar o celular pro pai ligar pro namorado na sua frente é o pesadelo de qualquer pessoa. Eu entendo o tremor nas suas mãos.
ResponderExcluirQuando seu pai chama você de impura, decepcionante, quebrada parece que ele tenta te reduzir a palavras para não ter que lidar com a pessoa inteira. É cruel e muito real.
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