Pela manhã, no espelho, observava um reflexo sussurrado segurando o telefone. Do outro lado da linha, a voz de Ted contava que estava sozinho em casa, os pais haviam saído e só voltariam a noite.
Era seu dia de folga.
O convite para ir até lá fez meu coração acelerar. Ele mencionou que precisava de ajuda com alguns papéis do trabalho, e era uma maneira de aproveitarmos a tarde juntos.
A ideia me encantou imediatamente. Havia algo de libertador na perspectiva daquela tarde clandestina.
Desliguei o telefone e me estudei no espelho, decidindo que não levaria nada que pudesse despertar suspeitas.
Vesti um vestido de alça fina e pano florido, calcei uma sandália de dedo e peguei apenas o dinheiro exato para uma pequena parada estratégica. Nem bolsa levei; queria parecer alguém que saía para uma caminhada inocente pelo bairro quando, na verdade, estava prestes a mergulhar numa tarde que prometia ser tudo, menos isso.
Caminhei com a respiração em descompasso com meus passos até uma padaria longe de casa, um corriqueiro ádito onde pecados menores eram vendidos junto com o pão de cada dia. Entrei com a naturalidade de quem vai comprar leite e saí com um maço de Marlboro Light apertado contra a palma da mão.

“tarde clandestina” ficou martelando na minha cabeça. é uma expressão simples mas carrega tanta coisa, medo, vontade, culpa.
ResponderExcluirTem algo muito feminino nesse trecho, mas não no sentido óbvio. é a logística secreta do desejo. só quem vive entende.
ResponderExcluirA frase “pecados menores vendidos junto com o pão” é absurda de boa. vou roubar pra vida, desculpa.
ResponderExcluirEsse final não fecha, ele abre. dá a sensação de que a verdadeira história começa ali, com o maço escondido na mão.
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