O ônibus passou pelo ponto de Ted
sem nem mesmo reduzir a velocidade. Não havia ninguém esperando, o condutor
simplesmente seguiu adiante.
No carro ao lado, o motorista
percorreu meu rosto cansado e minhas roupas levemente amarrotadas. Eram
segundos, fragmentos de atenção.
O celular vibrou no fundo da
bolsa. A mensagem iluminou a tela: “Não acordei. Vou me atrasar.” A normalidade
daquela falha humana tão corriqueira bateu de frente com os significados que
minha mente havia construído para a sua ausência. A realidade, maçante e
simples, recusava-se a participar da minha narrativa.
Na entrada do trabalho,
endireitei os ombros e coloquei no rosto meu sorriso profissional, eficiente e
sereno. Mas, antes mesmo de chegar ao portão, ouvi um sussurro. Vinha de dois
jovens encostados em suas motos. Falavam sobre eu ter usado a camiseta de Ted,
divertindo-se em me reduzir a rumores. Eles não sabiam meu nome, mas agora
conheciam meu rosto.
Eu era a mulher da camiseta; o
vazio entre o que eu era e o que me tornava aumentava, e eu me perdia nele.
Continuei andando, mas o passo
perdeu cadência. Nas escadas, percebi vozes baixas às minhas costas. Alguns
desviavam o olhar ao cruzar comigo, outros demoravam além do necessário. Havia
uma expectativa muda, uma conclusão pronta.
No corredor, cada porta que se
abria revelava olhares curiosos, rápidos e julgadores. Todos pareciam saber
exatamente o que fazer, onde estar, como se comportar. Eu caminhava entre eles,
me sentindo completamente deslocada.
Sob as luzes brancas, me senti
ainda mais exposta. O silêncio estudado tornou-se vitrine. As mesas alinhadas,
os humores idênticos, tudo conspirava para destacar a diferença, o desvio.
Pensei em me levantar, ir ao banheiro e trocar de roupa, como se ainda fosse
possível reparar o gesto. Mas não havia nada a trocar. Aquele ato, marginal,
era um grito de autonomia. Havia algo excitante em ter feito aquilo. Em ter
sido vista. Pela primeira vez, eu disse “eu existo” alto o suficiente para
alguém escutar.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Me identifiquei tanto, Joyce! A forma como você descreve o "vazio entre o que eu era e o que me tornava" é devastadoramente precisa. Já passei por isso, não com uma camiseta, mas com um corte de cabelo. A cidade nos reduz a símbolos, e os outros preenchem esses símbolos com os significados que querem. Você capturou a violência silenciosa do olhar alheio. Seu relato é mais do que um desabafo; é um documento sobre solidão urbana. Por favor, continue escrevendo. Continue existindo.
ResponderExcluirPara o engraçadinho que fala que é IA, volta pra escola. Eu até uso, mas só para corrigir a gramática. 😤😤😤
ResponderExcluirSeu texto é um retrato perfeito da micro-política do escritório, onde qualquer desvio vira notícia. E a metáfora do "grito de autonomia" que vira sussurro alheio genial. A angústia de se sentir um estranho no próprio cotidiano é algo que poucos sabem descrever, e você o fez com maestria
ResponderExcluirKarina e Anna, poderiam nos contar suas histórias também
ResponderExcluirNão tem muito segredo. Na minha família, todo mundo fumava, assim como todos os meus amigos. Ninguém via problema nisso. Nem lembro exatamente como comecei; naquela época, era a coisa mais comum do mundo.
ResponderExcluirAi seria muito legal saber ao menos alguma história do início
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