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Cai o Pano: A Descoberta dos Pais (05)

O ônibus passou pelo ponto de Ted sem nem mesmo reduzir a velocidade. Não havia ninguém esperando, o condutor simplesmente seguiu adiante.

No carro ao lado, o motorista percorreu meu rosto cansado e minhas roupas levemente amarrotadas. Eram segundos, fragmentos de atenção.

O celular vibrou no fundo da bolsa. A mensagem iluminou a tela: “Não acordei. Vou me atrasar.” A normalidade daquela falha humana tão corriqueira bateu de frente com os significados que minha mente havia construído para a sua ausência. A realidade, maçante e simples, recusava-se a participar da minha narrativa.

Na entrada do trabalho, endireitei os ombros e coloquei no rosto meu sorriso profissional, eficiente e sereno. Mas, antes mesmo de chegar ao portão, ouvi um sussurro. Vinha de dois jovens encostados em suas motos. Falavam sobre eu ter usado a camiseta de Ted, divertindo-se em me reduzir a rumores. Eles não sabiam meu nome, mas agora conheciam meu rosto.

Eu era a mulher da camiseta; o vazio entre o que eu era e o que me tornava aumentava, e eu me perdia nele.

Continuei andando, mas o passo perdeu cadência. Nas escadas, percebi vozes baixas às minhas costas. Alguns desviavam o olhar ao cruzar comigo, outros demoravam além do necessário. Havia uma expectativa muda, uma conclusão pronta.

No corredor, cada porta que se abria revelava olhares curiosos, rápidos e julgadores. Todos pareciam saber exatamente o que fazer, onde estar, como se comportar. Eu caminhava entre eles, me sentindo completamente deslocada.

Sob as luzes brancas, me senti ainda mais exposta. O silêncio estudado tornou-se vitrine. As mesas alinhadas, os humores idênticos, tudo conspirava para destacar a diferença, o desvio. Pensei em me levantar, ir ao banheiro e trocar de roupa, como se ainda fosse possível reparar o gesto. Mas não havia nada a trocar. Aquele ato, marginal, era um grito de autonomia. Havia algo excitante em ter feito aquilo. Em ter sido vista. Pela primeira vez, eu disse “eu existo” alto o suficiente para alguém escutar.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Me identifiquei tanto, Joyce! A forma como você descreve o "vazio entre o que eu era e o que me tornava" é devastadoramente precisa. Já passei por isso, não com uma camiseta, mas com um corte de cabelo. A cidade nos reduz a símbolos, e os outros preenchem esses símbolos com os significados que querem. Você capturou a violência silenciosa do olhar alheio. Seu relato é mais do que um desabafo; é um documento sobre solidão urbana. Por favor, continue escrevendo. Continue existindo.

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  2. Para o engraçadinho que fala que é IA, volta pra escola. Eu até uso, mas só para corrigir a gramática. 😤😤😤

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  3. Seu texto é um retrato perfeito da micro-política do escritório, onde qualquer desvio vira notícia. E a metáfora do "grito de autonomia" que vira sussurro alheio genial. A angústia de se sentir um estranho no próprio cotidiano é algo que poucos sabem descrever, e você o fez com maestria

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  4. Karina e Anna, poderiam nos contar suas histórias também

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  5. Não tem muito segredo. Na minha família, todo mundo fumava, assim como todos os meus amigos. Ninguém via problema nisso. Nem lembro exatamente como comecei; naquela época, era a coisa mais comum do mundo.

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  6. Ai seria muito legal saber ao menos alguma história do início

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